08 de julho de 2026

A história de quem a estuda e ensina

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 8 min

Nascido na cidade de São Paulo em 30 julho de 1954, Armando Alexandre dos Santos é licenciado em História, Filosofia (Centro Universitário Claretiano, 2010 e 2017) e Letras (Universidade Norte do Paraná, 2020), pós-graduado em História Militar (Universidade do Sul de Santa Catarina, 2015), Museologia e Patrimônio Cultural, (Centro Universitário Claretiano, 2020), Doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Alicante, na Espanha e realiza pós-doutorado, desde agosto de 2020, na Universidade de São Paulo.

Armando é professor do curso de Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em História Militar da Universidade do Sul de Santa Catarina e também jornalista profissional (MTb 36.265). Ele é membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (2009), do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (1994) e da Academia Portuguesa da História (2016).
Reside em Piracicaba desde 2006, onde é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, da Academia Piracicabana de Letras (titular da cadeira número 10) e do Círculo Monárquico Barão de Rezende. É atualmente diretor-orador do IHGP. Colabora assiduamente na imprensa local, com coluna semanal fixa no Jornal de Piracicaba.

Nessa entrevista ao Persona, fala sobre a importância de Piracicaba em sua vida e sua trajetória acadêmica.

O que a cidade de Piracicaba representa para você?
Nasci em São Paulo, resido em Piracicaba há 16 anos. Mudei-me de São Paulo para cá porque estava cansado de viver numa cidade imensa, caótica e barulhenta. Morava na Av. Angélica, quase esquina com a Av. Paulista, e estavam construindo bem ao lado do meu prédio uma estação do Metrô, com máquinas trabalhando dia e noite. O barulho era insuportável. Quando mudei, a sensação que tive foi a mesma que, suponho, tem um beduíno quando encontra um oásis no meio do deserto.

O que Piracicaba deve e pode melhorar?
Piracicaba tem uma história muito rica, tem personalidade própria, com tradições culturais intensas e compartilhadas pela população das várias origens étnicas, e ao mesmo tempo é uma cidade dinâmica, empreendedora e inovadora em todas as áreas. O equilíbrio entre tradição e progresso constitui, a meu ver, o maior tesouro de Piracicaba. É preciso preservar e incrementar esse tesouro.

Você tem o registro profissional de jornalista, qual a sua relação com a profissão e quando surgiu o interesse pela escrita e por trabalhar por meio dela?
Desde criança sempre tive propensão para ler e me comunicar, tanto oralmente quanto pela escrita; e sempre tive dificuldade com números e com ciências exatas e biológicas. Desse ponto de vista, sempre me pareceu muito claro o rumo a tomar, nunca tive hesitações a respeito. As profissões de jornalista e de historiador são afins, ambas têm muitas semelhanças entre si. O jornalista é, na verdade, o historiador do quotidiano; e o historiador é, de certa forma, o jornalista do passado. Ambos são comunicadores de conhecimentos, agentes transmissores de conhecimentos e de ideias, como também o é professor. Trabalhei na imprensa desde a década de 1970, atualmente tenho coluna semanal fixa na imprensa piracicabana, no Jornal de Piracicaba. Em editoras, trabalhei mais de 20 anos, publiquei muitos livros, muitas traduções; e sempre tive vida associativa intensa. Depois de mais de 20 anos como jornalista, ingressei relativamente tarde na área acadêmica. Sou vice-coordenador de um projeto de novo curso de Licenciatura em História, a ser lançado em 2022 pelo Centro Universitário Ítalo-Brasileiro, de São Paulo. Minhas disciplinas são História Medieval, Historiografia e Teoria da História e História Militar. Estou, no momento, no meu pós-doutorado na USP, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas-FFLCH da USP, no Departamento de Letras Clássicas, prossigo o mesmo tema da tese de doutorado, que é a novela de cavalaria catalã “Curial e Guelfa”, escrita no século XV.

A que atribui o uso de pseudônimos em suas obras?
Não se deve a nenhum mistério existencial, nem a uma multiplicidade de personalidades, como no caso de Fernando Pessoa com seus famosos heterônimos. Nada disso! Começou quando era diretor e fac totum de um jornal cultural chamado “São Paulo em foco”, e nele precisava fazer tudo, desde editoriais e artigos de fundo, até a seção culinária e a humorística, passando pela crônica, pela coluna religiosa, pela histórica etc. Foi preciso, então, adotar diversos pseudônimos diferentes, com estilos também diversificados. Foi uma experiência muito divertida e muito enriquecedora. Mais ou menos nessa época, eu trabalhava numa editora e, por contrato, precisava produzir um livro a cada mês. Comecei a assinar alguns livros com o pseudônimo “França Andrade”, que era sobrenome de solteira de minha avó materna. Mais tarde, já morando aqui em Piracicaba, apareceu um outro Armando Alexandre dos Santos que vivia aqui, tinha conta no mesmo banco e o mesmo plano de saúde que eu. Surgiram então alguns problemas e, por conselho de uma advogada, foi aberto um processo judicial que determinou a incorporação do pseudônimo ao nome. Continuo usando o nome antigo, porque o xará piracicabano já faleceu e não mais existe o problema da homonímia. Mas para efeitos legais, meu nome completo é Armando de França Andrade Alexandre dos Santos.

O que ainda não escreveu e gostaria de escrever? E sobre o que tem escrito ultimamente?
Projetos há muitos, em vários gêneros. O problema é que a vida é curta demais. Ultimamente tenho trabalhado em uma “História Medieval em perguntas e respostas” e em um “Manual de Historiografia e Teoria da História”. Também está saindo neste fim de ano a “Teoria e prática de História Oral”, que o IHGP publicará juntamente com uma seleção de entrevistas realizadas pelo meu amigo João Umberto Nassif. E estou empenhado na tradução de “Curial e Guelfa”, do catalão para o português atual, que é o objeto do pós-doutorado na USP. O plano é fazer uma tradução bem cuidadosa, para tornar mais conhecida, nos meios acadêmicos, essa belíssima obra literária praticamente desconhecida no Brasil, e, em seguida, preparar um resumo dessa novela em texto moderno, para os leitores jovens e o grande público não especializado.

Qual é a principal característica do seu trabalho acadêmico?
Sou, por feitio psicológico, tendente ao pluridisciplinarismo, e avesso à mentalidade de especialista que se fecha dentro de uma única disciplina. Também por formação humanística, entendo o conhecimento humano à maneira medieval, constituindo uma totalidade. Essa visão universalista era, como o próprio nome diz, característica das primeiras universidades, fundadas pela Igreja nos séculos XII e XIII. Nos séculos posteriores, a tendência foi o conhecimento humano ser cada vez mais segmentado e especializado. Hoje, existem especialistas para absolutamente tudo, mas falta a visão de conjunto, e esse é um dos dramas do mundo moderno. Ideologicamente, sempre fui conservador, católico e monarquista; sobre monarquia, aliás, escrevi vários livros históricos e também de teoria política, mas nunca quis atuar no campo político-partidário. Esse é um campo que não me atrai e não tenho a menor aptidão para ele.

A decisão em seguir a carreira de docente teve influência da sua família?
Não, não teve. Meu pai era um modesto comerciante, minha mãe era excelente dona-de-casa, minhas irmãs são advogadas, tenho uma sobrinha e primos advogados. Há também médicos, psicólogas e um engenheiro químico na família, mas a nota tônica é de longe a da advocacia. Costumo dizer, exagerando bastante, que sou o único não-advogado da família…

Qual a importância do ensino para o senhor?
O ensino é mais uma vocação do que uma profissão. É como o sacerdócio ou a medicina. Ninguém se torna professor para ficar rico, sobretudo no Brasil, onde o magistério é desvalorizado.

Como o senhor avalia a atuação e a contribuição das universidades e centros de pesquisas atualmente no Brasil?
O assunto é muito amplo e seria preciso um espaço maior do que o disponível para responder cabalmente a essa pergunta. Mas, em resumo, há dois problemas. O primeiro é que o ensino universitário no Brasil atual se expandiu quantitativamente, mas deixa muito a desejar qualitativamente. É esse o resultado de décadas de péssimo ensino básico. Até a década de 1970, de modo geral era de bom nível o ensino público brasileiro. Com as sucessivas Leis de Diretrizes e Bases, iniciadas pelo governo João Goulart e incrementadas pelos governos militares e pelos que vieram depois, o ensino público foi cada vez mais decaindo, embora os índices de escolaridade cada vez mais tenham subido. O resultado é que em todos os quadros comparativos internacionais, os alunos brasileiros tiram sempre o primeiro ou o segundo lugar… de trás para a frente! Somos, quase sempre os piores ou quase os piores. Enquanto isso não se consertar pela base, não se alcançará nas universidades a excelência a que o Brasil tem o direito de aspirar. Uma ressalva precisa ser feita, entretanto: este meu comentário pessimista refere-se à generalidade do ensino brasileiro, mas reconheço que existem nichos de excelência realmente admiráveis, em todos os níveis, desde o mais básico até o dos mestrados e doutorados. O grande desafio a ser superado é conciliar quantidade com qualidade, ou seja, democratizar e disseminar um ensino público de excelência. Não é fácil, mas é preciso conseguir atingir essa meta, custe o que custar. O outro problema é o da excessiva especialização, ao qual já aludi há pouco. Hoje, há cursos universitários super-especializados, concentrados em áreas minúsculas (o que não significa, claro, que não sejam importantes) do conhecimento, mas falta a visão holística, falta o ensino humanístico que no passado era solidamente ministrado nos cursos ginasiais e de nível médio.

O que diz para os jovens que pretendem ingressar à carreira acadêmica?
Seja qual for a área escolhida, o importante é ter amor, ter entusiasmo pelo que faz. Santo Agostinho dizia: “Ama et quod vis, fac” (ame, e depois faça o que quiser). O aspecto econômico tem importância, mas é secundário.

Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br

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