10 de julho de 2026

Sem condições de comprar gás, famílias cozinham no fogão a lenha

Por edicao_jp |
| Tempo de leitura: 4 min

Botijão de 13kg pode chegar a R$100; benefício do governo estadual não atende famílias do Renascer

Com o valor médio do botijão de 13 kg a R$ 100, milhares de famílias brasileiras, principalmente as que residem em comunidades ou estão em situação de vulnerabilidade social, recorrem ao fogão a lenha para cozinhar. Só em 2021, a alta do produto foi de 20,34%, segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Sem condições de pagar pelo valor do gás de cozinha, a maioria das 440 famílias da Comunidade Renascer, uma das maiores ocupações do interior do estado de São Paulo, localizada na zona noroeste de Piracicaba, no Jardim Nova Suíça, improvisa em suas casas, a lenha e o fogão para cozinhar os alimentos essenciais à sobrevivência.

Segundo a FGV, o impacto que o gás exerce no orçamento das famílias em situação de pobreza é mais que o dobro do sentido pelas pessoas que estão no topo da pirâmide de renda. Dados da fundação informam que a compra do botijão compromete 2,18% do orçamento das famílias que ganham até 2,5 salários mínimos e 1,03% nas famílias que têm rendimento de até 33 salários.

O governador João Doria (PSDB), em visita a Piracicaba no dia 18 de julho, informou o lançamento do Vale Gás, benefício estadual que atenderia cerca de 440 famílias de Piracicaba, segundo a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social).

O programa de proteção social tem como objetivo garantir transferência de renda para a compra de botijão de gás de cozinha (GLP 13kg) com pagamento de três parcelas bimestrais, entre os meses de julho e dezembro de 2021, no valor de R$100 cada. O investimento previsto pelo governo do estado é de R$ 31,3 milhões.

A Smads informou que o Vale Gás atenderá famílias em pobreza e extrema pobreza, com renda mensal per capita de até R$ 178. Este grupo deve estar inscrito no Cadastro Único (sem Bolsa Família), ser residente em comunidades e favelas.

Para saber se está dentro dos critérios do Estado, para receber o Vale Gás, o cidadão deve acessar: valegas.sp.gov.br, com o número de seu NIS (Número de Identificação Social) em mãos. O número consta no cartão do Cadastro Único da família e também pode ser acessado pelo aplicativo Meu CadÚnico.

No entanto, nenhuma família da Comunidade Renascer teve acesso ao benefício. Maria Gercília Costa Silva, 61, faz parte de uma delas. Há mais de quatro anos morando na comunidade, utiliza o fogão a lenha instalado à esquerda da porta de entrada de sua casa para alimentar a si e sua família. “Faço o fogo com pedaços de madeira que encontro na rua”, explica. Para ela, a condição de vida já foi resumida em “pagar aluguel ou comer”, o que a motivou a buscar moradia na Renascer.

Juliana Garcia de Oliveira, 40, líder comunitária da Renascer, enfatizou que a maioria dos moradores está desempregado ou com trabalhos informais, “bicos”, e que tentaram se cadastrar para receberem auxílios governamentais, incluindo o Vale Gás, no entanto, a informação é que eles não têm esse direito, o que gera dúvidas por não saberem o motivo.

Vanilda Alves da Silva, 53, é chefe de família. Mora há sete meses na comunidade com seus dois filhos, um de 16 e outro de 19 anos. Todos estão desempregados e em busca de recolocação no mercado de trabalho. No chão, há um fogão a lenha improvisado com apenas uma boca, e uma panela. Nela, há apenas feijão.

Cozinhar a lenha é tarefa que exige tempo e paciência. Curvada para a frente e abaixada, alimenta o fogo, aos poucos, em uma tentativa de controlar a temperatura. O feijão demora horas para ficar pronto e o caldo não engrossa. Sem trabalho ela e os filhos vivem com o auxílio Bolsa Família e doações. Vanilda sabe que está distante o dia em que voltará a usar o gás de cozinha.

Na tentativa de possibilitar o acesso a possíveis benefícios e auxílios dos governos federal, estadual e municipal, Juliana se responsabiliza por repassar e atualizar a lista de moradores para cadastro no Cras (Centro de Referência e Assistência Social), para que possam se inscrever em programas da Emdhap (Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba). Entretanto, “soubemos que não temos como ser contemplados ainda porque a fila é grande e outros lugares estão na frente”, diz a líder comunitária.

AJUDA
Com a pandemia esses moradores passaram a precisar ainda mais de doações de cestas básicas. Por conta da solidariedade, a falta de alimentos tem sido contornada. A liderança comunitária organiza uma lista de pedidos e um centro de distribuição. As doações são feitas pelos próprios moradores, numa rede de ajuda mútua, ou por meio de campanhas de arrecadação na cidade, como da Cufa (Central Única das Favelas), por meio do coordenador em Piracicaba, Herold Eugênio. Interessados em fazer doações, podem entrar em contato, pelo (19) 99493-3243 (Juliana).

Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br

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