08 de julho de 2026

Diz aí, doutor?

Por Marcelo de Andrade |
| Tempo de leitura: 3 min

Em uma das minhas andanças pela cidade, sobretudo em momentos de pouquíssima movimentação social, justamente para evitar aglomerações, me permiti contemplar com mais cautela e sensibilidade tudo o que estava ao meu redor. Nessas oportunidades, pude olhar para a cidade com outros olhos, percebendo detalhes que, até então, eram invisíveis para mim. Entre belas paisagens, particularidades e descobertas, notei algo sistemático que me chamou a atenção. Trata-se de uma miudeza praticamente imperceptível em tempos de normalidade, cuja vida cotidiana se torna excessivamente frenética.

Ao passar pela frente de consultórios, clínicas de saúde, bem como escritórios de advocacia, percebi que há, nas placas contendo o nome dos profissionais que ali trabalham, o termo Dr. ou Dra. apenas para se referir a médicos e advogados, mesmo quando estes dividem espaço com outros profissionais como psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas etc. Confesso que este é um tema já superado para mim, mas é fato que ainda desperta certa “disputa” sobre a utilização do termo.

A minha inquietação em relação a isso se deu após um episódio específico. Ao comparecer a uma consulta de rotina, observei que na entrada da clínica havia o nome de 9 profissionais que integravam o espaço, dos quais 8 eram médicos e apenas 1 psicólogo. Fato é que todos os 8 médicos utilizavam o termo Dr. ou Dra. antes de seus nomes enquanto o psicólogo era o único que não.

Não podemos negar que há uma questão histórica e cultural em torno desse debate. Formalizado a partir das primeiras universidades europeias, o termo doutor(a) era comumente relacionado a professores considerados aptos a ensinar. Aqui no Brasil, o costume de chamar médicos e advogados de doutores vêm da época colonial em que jovens, geralmente ricos, saíam de suas cidades para cursar majoritariamente medicina ou direito. Naquela época, D. Pedro I decretou que aqueles que concluíssem os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais seriam chamados de doutores. Após a proclamação da república e o fim do império tal decreto caiu em desuso.

No dado momento, parto do pressuposto de que doutor(a) é uma titulação acadêmica e, portanto, doutores são aqueles que concluíram, defenderam e foram aprovados em suas teses de doutorado. Certamente, vários desses profissionais cujos nomes são precedidos das siglas Dr. podem ser, de fato, doutores. Mas, é certo também que tantos outros se apropriam do termo simplesmente por uma questão cultural. O que quero dizer é que não há qualquer demérito, problema ou julgamento de valor em não ser chamado ou não se apresentar como doutor(a), pois não se trata de um pronome de tratamento, e sim de um título acadêmico.

Na verdade, defendo que ninguém deveria ser reconhecido como doutor(a) fora do âmbito acadêmico, pois, como já disse, trata-se de um título que faz parte apenas dos meandros da vida acadêmica. Dessa forma, os pronomes de tratamento Sr., Sra., dentre outros seria uma forma respeitosa para se referir a qualquer profissional, seja ele um médico, advogado, engenheiro, dentista, jornalista, enfim.

A questão que se levanta é por qual razão alguns profissionais sentem tamanha necessidade de se apresentarem como doutores(as)? A mim parece apenas uma questão imbuída em um complexo jogo de distinção social cujo doutor seria aquele que deteria o conhecimento enquanto os demais aceitariam passivamente suas recomendações. No mais, penso que nós enquanto sociedade precisamos rever alguns dogmas que imperam até o presente momento.

Marcelo de Andrade Doutorando em Ciências da Comunicação – USP. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo – ESPM/SP Publicitário pela Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP