J. Borges achava estranho que turistas de passagem por Bezerros, sua terra natal, em Pernambuco, quisessem levar para casa suas obras em tamanho grande. "Onde eles iam colocar aqueles trabalhos?", questionava ele.
Era a década de 1970, o artista nascido em 1935, acabava de ser descoberto por amantes das artes plásticas. Sua arte, aliás, era a xilogravura. Bom, xilo para os conhecedores. Para J.Borges era apenas uma forma que ele arranjou de ilustrar os seus trabalhos de cordel sem ter de desenhar as capas uma a uma.
Então, ele entalhava o desenho na madeira e fazia dela uma matriz, que serviria como um "carimbo".
Filho de agricultores, J. Borges frequentou a escola por pouco tempo, o suficiente para ler e escrever. Tornou-se vendedor e declamador de folhetos, aos 20 anos de idade, nas festas populares do Nordeste. E foi nos anos 1970 que lhe pediram pela primeira vez para fazer aquilo que ele estava acostumado a produzir mas agora em tamanho grande.
Sua carreira decolou. Em 1972, J.Borges ganhou sua primeira exposição no Rio de Janeiro. E, em pouco tempo, seus trabalhos já estavam em mostras na França, Alemanha, Suíça, Itália, Cuba e Venezuela.
Hoje, aos 82 anos, o artista é considerado o "pai da xilogravura" no país. Seus trabalhos incorporados ao Acervo Sesc de Arte Brasileira ganharam pela primeira vez exposição em uma unidade: São José.
Produção.
Até o dia 4 de fevereiro, a mostra "A Gravura de J. Borges" estará no Sesc. No detalhe: as figuras na parede estão acompanhadas de suas matrizes originais para que todos possam entender de que forma cada desenho foi feito.
"A mostra promove uma reflexão sobre o fazer manual. E a nossa ideia foi trazer os dois elementos (matriz e cópia) porque, muitas vezes, você vai a um museu e não entende como aquele trabalho é feito, acha que é simples, ou mesmo fruto de uma produção digital. Mas queremos mostrar os detalhes, que a madeira é entalhada uma a uma e depois são produzidas cada uma das figuras que estão aqui", afirmou Renata Mesquita, técnica de programação e responsável pela programação das artes visuais.
Com papel, tinta, madeira e ferramentas, J.Borges desenha pequenos universos.
"São cenas que contam histórias, como a do forró em Bezerros; do frevo em festas populares; da briga da serpente com o dragão... Ele também desenha muitos pássaros e animais da natureza", disse Renata.
Curso.
Quem quiser conhecer mais da arte, nos dias 23 e 25 de janeiro, às 19h, ocorrerá uma oficina de xilogravura com o designer Rafael Kenji. As vagas são limitadas. Exposição e oficina têm entradas gratuitas.
O Sesc fica na av. Adhemar de Barros, 999, São Dimas..