O dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) dizia ser um palhaço frustrado. Um de seus personagens preferidos, aliás, era o palhaço de "O Auto da Compadecida", peça teatral escrita por ele, em 1955.
E foi a partir do desejo de homenagear o escritor na linguagem que ele mais admirava, que surgiu o musical "Suassuna - O Auto do Reino do Sol", espetáculo que abre o 33º Festivale nesta quarta-feira (29), às 20h, no Teatro Municipal, em São José.
Idealizada por Andrea Alves, da agência Sarau, o evento traz textos e músicas originais, mas totalmente inspirados no legado de Suassuna.
"Há algum tempo, Ariano me falou: 'Não venha comemorar meus 85 anos, eu não vou morrer, quero que você festeje os meus 90!'. Naquele momento me senti condecorada e com uma grande missão pela frente", contou, em nota, a produtora.
O desafio foi lançado para a Cia. Barca dos Corações Partidos. E Andrea convidou três conterrâneos de Suassuna para criar algo inédito, desenvolvido de forma coletiva.
Bastidores.
O texto e as canções do musical foram produzidos ao longo do processo de ensaio. O elenco, aliás, passou por uma série de oficinas circenses e chegou a excursionar pelo nordeste brasileiro. Foi um intenso processo, com oito horas diárias de trabalhos e apenas uma folga semanal por quatro meses.
Nesse período, Braulio Tavares idealizou a história central da montagem, centrada em uma trupe de circo-teatro e nos acontecimentos de uma noite de apresentação do grupo. Foi a forma encontrada pela companhia de falar de Suassuna, sem, no entanto, apresentar um espetáculo biográfico ou uma adaptação de suas obras.
"Quando entrei na história, já estava decidido que não seria um espetáculo Armorial (como são chamadas iniciativas artísticas cujo objetivo é criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro)", afirmou Luís Carlos Vasconcelos, responsável pela encenação, e que trouxe toda a sua bagagem como palhaço para o processo.
"Teríamos a liberdade de subverter, de trazer o escritor de outras formas. E a criação foi toda impregnada de Ariano, de seus personagens e de seu universo", continuou.
A parte musical seguiu o mesmo percurso. Assim, os textos poéticos e as letras das músicas usam as formas tradicionais de poesia popular, que foram cultivadas por Suassuna, como a sextilha, a décima, o martelo e o galope.
Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho, mostravam as melodias e algumas letras surgiam de improviso. A maioria delas ficou a cargo de Braulio Tavares, mas também tem canções de outros integrantes da companhia, como Adrén Alves e Renato Luciano.
"'Contaminação' foi a palavra que define todo este projeto. As melodias foram contaminadas pelas letras e vice-versa. Criamos algo novo, mas totalmente contaminado por Ariano", avaliou Chico, a quem o escritor chegou a dedicar um livro de poesias.
Serviço.
O espetáculo que abre o Festivale ocorre no Teatro Municipal de São José (r. Rubião Júnior, 84, Centro).
A cidade receberá outras duas apresentações na quinta-feira (30), às 14h30 e às 20h, ambas no Municipal. A sessão da tarde é voltada apenas a alunos da rede pública de ensino.
O ingresso é solidário. As reservas podem ser feitas no site da FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo) e, pede-se a doação de uma lata de óleo que será destinado ao Fundo Social de Solidariedade..