Imagine: uma vida sem internet, sem celular, sem televisão e praticamente sem dinheiro. Soa como um pesadelo? E se em troca lhe dermos os melhores amigos, alimentos saudáveis e uma existência quase que sem problemas? Acredite, há muitas pessoas que vivem assim. Inclusive próximo daqui, em Cunha.
A vida simples do campo foi o tema da pesquisa de doutorado do fotógrafo e etnógrafo Pedro Ribeiro, e que deu origem ao livro "Vida Caipira" (editora Edusp), que será lançado nesta quinta-feira (29), às 19h, no parque Vicentina Aranha, durante o evento "A Cidade em 4 Tempos".
Ribeiro acompanhou durante cinco anos (entre 1997 e 2002) o dia a dia da família Monteiro e revela em seu livro como vivem pessoas que não têm quaisquer ambições urbanas e vivem, sim, muito bem, obrigada!
"É curioso porque parece que eles pularam a fase da Revolução Industrial. Eles mantêm um modo de vida do século 18 e agora estão num momento pós-moderno, pós-industrial, em que o dinheiro, quando necessário, sai do setor de serviços", afirmou Ribeiro.
BASTIDORES.
O pesquisador conta que apesar de se considerar urbano, sua família veio do meio rural. "Eu sou a primeira geração 'urbana', mas tenho apego a vida do campo. E foi daí que veio a ideia de fotografar uma comunidade que não tivesse relação com o mundo moderno", afirmou ele, que teve como orientador o professor José Carlos Sebe Bom Meihy.
Uma vez que Cunha não fez parte dos períodos da cana-de-açúcar e do café, não teve a escravatura que foi vista no restante do país. Sendo assim, muito da efervescência que atingiu as cidades não chegou por lá.
"Nas primeiras vezes em que fui visitar a família, o sítio em que viviam não tinha, por exemplo, luz elétrica. E eles era resistentes, diziam não precisar, não faziam questão", contou Ribeiro. "Quando a colocaram, não foi a luz ou a televisão o foco de transformação da vida, mas a geladeira, que mudou todos os hábitos da casa. Antes se fazia feijão todo dia. Depois, era preciso fazer apenas duas vezes na semana. Então tornou-se importante ocupar o tempo", conta Ribeiro.
FAMÍLIA.
Segundo relato do autor, de um lado, estava as mulheres da casa, Dita, a mãe, e Maíra, uma bela jovem, filha do casal. A função delas: limpar e cuidar do lar e da comida. Já eles, Maurílio, o pai, e Zé Maurílio, o filho, tinham por função trabalhar. E, aos finais de semana, a comunidade toda se ajuda, seja lavando uma louça, consertando uma panela, e trocando alimentos das hortas: mandioca, feijão e milho. Não há relações financeiras.
"Por aqui dizemos 'amigos amigos, negócios à parte'. Lá tudo é feito em parceria e funciona perfeitamente bem. E isso tudo é impensável para nós porque nossa necessidade é outra. Vivemos nesse esquema capitalista mecânico e industrial", disse o pesquisador. "Mas sou otimista. Vejo que a nova geração de jovens está mais interessada em experiências, em viver, tocar música, e menos em juntar bens físicos. Quem sabe...", opina..