10 de julho de 2026
Viver

São José tem baixa adesão em edital para artistas de rua

Por Paula Maria Prado@paulamariaprado |
| Tempo de leitura: 7 min
Sinal vermelho. Malabares em semáforo perto do Jd. Aquarius. Artistas de rua criticam valor de edital

Com baixa adesão, edital para intervenções artísticas "Arte nas Ruas", da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, de São José, encerra com oito nomes aprovados, sendo sete selecionados como pessoas físicas e um como pessoa jurídica.

Segundo informações da instituição, os aprovados na primeira etapa deverão comparecer na segunda-feira (28) na FCCR. Na ocasião, os artistas poderão escolher os locais, dias e horários da intervenções artísticas que realizarão.

Por ora, as atividades acontecerão - de setembro a dezembro - em espaços da Fundação Cultural, feiras-livres e eventos públicos. Serão, em média 240 horas por mês de intervenções. Ou seja, média de R$ 900 por artista.

Pretende-se uma avaliação de todo o processo ao final do primeiro mês de atividade. E então será verificada a necessidade de um novo edital para a contratação de mais artistas.

BOICOTE.

O edital oferece uma saída ao projeto de lei aprovado no mês de junho na Câmara e que proíbe as atividades artísticas nos cruzamentos.

Mas a seleção não agradou a classe artística, que usou as redes sociais para protestar e moveu uma campanha de boicote às inscrições.

ARTISTAS.

Procurados, alguns artistas selecionados pelo edital preferiram não comentar o caso.

"Não sei como esse edital vai funcionar, mas quero tentar usar a oportunidade para espalhar minhas mensagens como sempre fiz nos semáforos tentando construir a realidade na qual quero viver e dissolver essa cultura da desvalorização da arte", comentou o artista Ronny Cristian, 21 anos.

Confira seu texto na íntegra no site de OVALE: www.ovale.com.br. .

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EXTRA:

"Meu nome é Ronny Cristian, tenho 21 anos e vivo como artista de rua há dois anos, mas já sou artista há muito tempo. Sou músico, professor, compositor, bailarino e malabarista, e venho participando de diversos estudos de arte contemporânea, teatro e circo, me voltando cada vez mais à prática terapêutica da arte.

"Comecei a praticar malabarismo pelos benefícios que essa atividade física, mental e artística nos traz. Sempre trabalhei mas logo que comecei a me envolver mais com a arte percebi que espalhar beleza e alegria me trazia muito mais realização que qualquer emprego. A partir daí comecei a me apresentar regularmente nos semáforos da cidade onde cresci e onde aprendi a fazer arte.

"Nunca me prendi somente aos semáforos, viajo bastante e sempre aprendo novas formas de servir e encontrar meu sustento: vendo bolos, dou aulas de violão e muito mais entre tantas oportunidades de adquirir experiência. Mas hoje vivo quase integralmente das contribuições espontâneas que recebo nos semáforos. Esse incentivo vem me ajudando a investir cada dia mais no meu trabalho que, cada vez mais refinado, vem tocando corações por onde quer que eu vá, nesse intuito de espalhar beleza e paz, pela cura do planeta e de nossas relações.

"Sobre a lei, seria interessante falar sobre o processo da aprovação e da luta contra ela em si, mas quero ser um pouco mais prático. Chamá-la de “Lei do Malabares” diminui a gravidade de tudo o que aborda, pois se trata de uma questão muito séria de liberdade de expressão artística, utilização de espaço público e direitos constitucionais.

Em uma cidade tão grande e com tamanha desigualdade é claro que há muitas pessoas em situação de rua. Isso é um problema social que dificilmente pode ser resolvido com leis enquanto há tanto desemprego e a educação nacional deixa tanto a desejar.

"Foram muitas as tentativas de diálogo. Dias em que eu mesmo passei na Câmara dos Vereadores tentando argumentar pela reprovação do Projeto de Lei. Fiquei muito decepcionado ao ver tantos vereadores me ignorarem. Foi um mês inteiro de protestos e ainda assim, contra toda razão e puramente movida por interesses pessoais, a lei foi votada e aprovada.

"Fiquei muito triste em ver poucos vereadores discursando em nossa defesa enquanto os demais, aqueles que votaram a favor da lei, deixavam o salão da Câmara ignorando qualquer argumento, conversando entre si e dando risadas, como se estivessem debochando de nossa causa, de nossa cultura, de nossas vidas...

"Em vez de tentarem qualquer tipo de regularização, aprovaram uma lei proibitiva, sem entender o impacto cultural que isso traz a nossas vidas. Ao longo desses anos, conheci grandes artistas que me inspiraram, que viajam o mundo e vivem dessa arte há muito mais tempo do que eu, levando apresentações de deixar saudade por onde quer que passem.

"Essa arte já faz parte de quem eu sou, do meu estilo de vida e de minha cultura, da cultura da cidade que me criou e, para mim, é como se estivessem me proibindo de ser quem eu sou. Bem como liberdade cultural e religiosa, essa lei é uma afronta às minhas crenças e aspirações, aos sonhos que venho construindo para mim e para os futuros artistas que ainda quero ver.

"Foi criado um edital e abrir editais é mesmo obrigação da Fundação Cultural Cassiano Ricardo para promover a arte e levar a cultura de forma acessível a população. Mas convenhamos que nada é mais acessível que estar andando na rua e assistir uma apresentação gratuita e espontânea. A primeira impressão quando lançaram o edital foi de grande decepção em ver o descaso e a desvalorização da arte e do artista. Isso gerou grande discussão inclusive planos de boicote.

"Então, fomos chamados a uma reunião com alguns representantes da FCCR e pudemos conversar sobre alguns pontos. Mas não foi uma reunião de reelaboração, já que o edital já havia sido publicado. Não tivemos nenhuma voz para entrarmos em acordo. O edital até foi construído com um artista de rua, mas acho que falo pela maioria quando digo que ele não nos representa.

"Mas conversamos sobre as formas de trabalhar com esse edital, com suas possibilidades. Quando falamos de intervenção artística pode surgir a pergunta, o que é arte? Embora estejamos reunidos como artistas de "circo", sendo que somos artistas de rua, vislumbro poder trabalhar junto com outros artistas para produzir intervenções mais criativas, que possam comunicar de uma forma muito mais profunda assuntos de importância social e cultural; que possam servir de momentos de reflexão muito além dos momentos de contemplação dos números artísticos;

e intervir na realidade cotidiana, desconstruindo padrões estéticos, normativos, desconstruindo o construído para criar uma realidade em que realmente queremos viver e estar.

"A principal função da arte é comunicação, do tipo que reverbera em nossos corações e pensamentos de uma forma muito intensa, como aquela imagem que fica em nossas cabeças o dia todo, ou aquela música que marca para sempre um momento de nossas vidas, uma fotografia que levamos sempre conosco quem sabe para recordar de uma lição que aprendemos ou de um momento que não queremos esquecer.

"Não sei como esse edital vai funcionar, mas quero tentar usar a oportunidade para espalhar minhas mensagens como sempre fiz nos semáforos, tentando construir a realidade na qual quero viver. E dissolver essa cultura da desvalorização da arte. Isso é uma coisa muito importante a se tratar.

"Muitos acham que o trabalho do artista de rua é uma coisa vergonhosa, que não é digna. Muitos vêm com o discurso "pelo menos não está roubando", como se se eu não estivesse ali no semáforo eu estaria roubando.

"Em primeiro lugar, nunca nem pedi nada a ninguém, tudo o que recebo são contribuições voluntárias pelas minhas apresentações, e através disso venho investindo mais e mais em minha arte, produzindo trabalhos cada vez mais bonitos, com música, dança, circo e teatro.

"E vivo, dignamente, com amor pelo que faço, eu sei do valor que tem meu trabalho, do esforço que tive e tenho até hoje para me aprimorar no que faço, ainda assim a Prefeitura gasta mais de R$ 700 mil, muito mais que o valor do próprio edital, em uma propaganda que denigre a imagem do artista e o coloca como se fosse um drogado, um morador de rua ou um pedinte, e incentiva a DESVALORIZAÇÃO da arte.

"Nesses apenas dois anos que vivo de arte, sustento minha casa, minha família, viajo e compro material para estudar e me aprimorar. Há duas semanas apresentei meu primeiro trabalho autoral como cantor e violonista, e estou apenas começando. A rua me deu um espaço, um palco, me deu o tempo e tudo o que precisei foi de alguns segundos para que pudesse ser quem eu sou e me expressar, espalhando cores no ar e alegria em meu olhar, em meu semblante, em minhas palavras. Me doei e pude receber reconhecimento, pois reconheci meu próprio valor em potencial."

Poema:

Rua

Mais uma vez me encontro aqui na rua

Como quando na rua certa vez me encontrei.

Um encontro com o espaço,

Um encontro com o tempo

Que dentro de mim só pedia um momento,

Alguns segundos para ser quem eu sou,

O lugar onde vou

Para expressar um sentimento

Em forma de movimento

Sem censura ou julgamento que possam me impedir,

O respeito com meu ser

Meu direito de ir e vir.

Meu direito de estar

Onde posso conquistar,

Meu direito de viver, de servir, de me doar.

Meu esforço, meu sorriso, minha forma, meu olhar,

Minha voz aos ouvidos de quem pode escutar.

Este é o caminho,

Aqui é nosso lugar

E unidos como nós

Ninguém pode separar

Nossa casa, nossa escola,

Nossas vidas, nossa parte.

Viva a vida!

Viva a arte!

Ronny Cristian, artista