10 de julho de 2026
Brasil

‘Brasil ficará isolado se evitar debate sobre o clima’, alerta Carlos Nobre

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 5 min
Carlos Nobre

 O presidente Jair Bolsonaro ficou órfão de um grande aliado no flanco ambiental e, agora, terá de abandonar seu eleitorado tradicional, que é negacionista climático, para sobreviver em meio às negociações internacionais sobre as mudanças climáticas.

Para Carlos Nobre, o presidente brasileiro será cobrado pela Casa Branca e por aliados europeus, negligenciados enquanto Trump esteve no governo, sobre o aumento das emissões de gases estufa, que ocorreram mesmo durante a pandemia do coronavírus. A pressão que virá de mundo afora tem apoio cada vez mais evidente da própria sociedade brasileira, impactada pelas imagens de destruição da Amazônia e do Pantanal.

O que podemos esperar do relacionamento entre Joe Biden, que ameaçou impor sanções econômicas ao Brasil diante da devastação da Amazônia, e Jair Bolsonaro, que apoiou abertamente Donald Trump?

Bolsonaro pôs o Brasil como um país subserviente aos EUA. Não estranharia se fosse à posse de Biden. Talvez o único presidente brasileiro que tenha batido de frente com o americano foi Ernesto Geisel (1974-1979), quando Jimmy Carter cobrou políticas favoráveis aos direitos humanos e contestou a tortura e a corrupção. Mas isso foi na ditadura militar, e Geisel não corria o risco de perder uma eleição. O poder passaria dele para outro general.

Bolsonaro precisa escolher: ou agradará seu eleitorado terraplanista e negacionista sobre o clima e a Covid-19, ou vai aderir a uma aliança climática que une até EUA e China. Não acredito que ele substituirá prontamente os ministros de Relações Exteriores (Ernesto Araújo) e Meio Ambiente (Ricardo Salles), porque passaria a impressão de que ele só aderiu à boiada por sentir que sua reeleição estaria em risco.

Um ponto positivo para o Brasil na eleição do democrata é que Biden conhece o Brasil. Quando era vice-presidente, no governo de Barack Obama, teve um contato próximo com Lula e Dilma. Fazia as vezes de ministro de Relações Exteriores dos EUA.

E o seu discurso sobre a Amazônia? Não provocará um estranhamento?

Mesmo que Trump vencesse, existe um movimento mundial de boicote de investimentos na degradação, no fogo, e favorável à proteção dos povos indígenas. Muitos desses fundos estão ligados a Wall Street. O Brasil fica isolado sem o guarda-chuva de Trump. Biden centralizará sua agenda ambiental no corte de incentivos ao petróleo e aos combustíveis fósseis, porque seu objetivo é que os EUA fiquem neutros em carbono até 2050. Acredito que voltará a falar sobre um auxílio de US$ 20 bilhões para a Amazônia, e tentará articular uma rede para a conservação da floresta, levando fundos que podem atrair negócios sustentáveis. Mas é possível que Bolsonaro tente destinar parte dos recursos a seus amigos ligados a grilagem, desmatamento e mineração. O governo precisa abandonar o discurso antiglobalista, que estará restrito a poucos países, além do Brasil: Turquia, Polônia, Venezuela, Hungria e Filipinas. Bolsonaro nos colocou como uma economia cada vez mais primária, uma república de bananas.

Biden tuitou, no dia da eleição americana, que os EUA voltariam ao Acordo de Paris em 77 dias, quando começaria seu governo. O Brasil não tem cumprido as metas que estabeleceu no documento internacional. Será constrangido a mudar seu posicionamento sobre as mudanças climáticas?

Sim. As metas apresentadas voluntariamente pela comunidade internacional indicam que a temperatura aumentará entre 2,8 e 3 graus Celsius nas próximas décadas. É um suicídio para o planeta. O ideal seria restringir-se a 1,5 grau Celsius. Este ano deveria ser o primeiro em que as nações apresentariam metas mais rigorosas. O Brasil estabeleceu compromissos rigorosos, mas não está seguindo a direção que traçou. Os EUA voltarão ao tratado prometendo zerar emissões ligadas a agricultura e indústria. Se fizerem isso, então o Brasil ficará sozinho. Até porque foi provavelmente o único país do mundo em que, em plena pandemia da Covid-19, aumentou as emissões de gases de efeito estufa, devido ao pico do desmatamento.

No campo diplomático, diante das acusações sobre o aumento da devastação da Amazônia, o Brasil afastou-se de líderes europeus e aproximou-se dos EUA, que se tornaram seu principal aliado. O que acontecerá agora com o governo Bolsonaro?

No final do ano passado, quando o desmatamento virou uma gritaria ambiental, Bolsonaro disse que teria tolerância zero com o crime ambiental. O que mais alimenta a industrialização do crime ambiental é legalizá-lo, é deixar de cobrar multas por infrações. Isso acontece durante a gestão de Salles no Ministério do Meio Ambiente, e por isso ele precisa ser retirado. O desmatamento atinge uma área gigantesca, mas ainda é possível combatê-lo. Já fomos muito bem sucedidos na redução da devastação da floresta anos atrás, e hoje nosso desempenho seria ainda melhor, porque temos máquinas mais desenvolvidas.

Segundo pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria, 98% da população brasileira preocupa-se com o meio ambiente. A opinião pública no país veria Biden como um aliado?

Sim, até porque o meio ambiente nunca foi tão valorizado. Os meios de comunicação fixaram a cobertura na devastação da Amazônia e do Pantanal, mostraram animais feridos e carbonizados, são imagens fortes. Se o Brasil fosse uma democracia fortemente estabelecida, não haveria o risco da aprovação de uma medida provisória que praticamente legaliza a grilagem no país.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), deixou o texto caducar, mas outros projetos apareceram. Não exercemos corretamente nosso papel de cidadãos, não cobramos a rastreabilidade da carne, ou seja, não sabemos se vieram de uma área que foi desmatada. Esta exigência provocaria um impacto econômico. A população brasileira já viu que Biden se preocupa com o meio ambiente, e por isso torce por ele.