09 de julho de 2026
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O anti-Taubaté: cartas revelam bronca de Monteiro Lobato com a elite de sua cidade natal

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Emilia

O escritor Monteiro Lobato, pai da literatura infantil brasileira, é um dos principais ícones de Taubaté, se não o maior. Referência literária de várias gerações, imortalizou personagens como Emília, Cuca, Narizinho (que completou 100 anos neste mês), entre outras obras.

Mas, na cidade onde nasceu e viveu boa parte de sua vida na primeira metade do século 20, Lobato nem sempre teve uma bola relação e nem sempre foi bem visto por parte da sociedade taubateana. Principalmente pelas elites locais.

Novas cartas enviadas por ele ao amigo Cesílio Ambrógio, datadas de 1943 e divulgadas recentemente pelo portal Almanaque Urupês, especialista na obra do escritor, mostram bem essa relação estremecida e conflituosa e entre ele e os poderosos da cidade.

Em uma delas, titulada de ‘O Anti-Taubaté’ no site, mostra a desconfiança de Lobato em relação a um projeto de criação de uma biblioteca no Sítio do Pica-Pau Amarelo.

“Taubaté, meu caro (e eu sei isso a fundo). Taubaté, o padre, o bispo, a carolice, a estreiteza mental, o acanhamento intelectual crônico; e, portanto jamais prestaria homenagem a um sujeito que é anti – Taubaté em tudo, e isso desde menino”, escreveu Lobato a Ambrogi.

Na carta, Lobato ainda faz referência ao desejo da esposa de Cesídio, Lygia Fumagalli Ambrogi, de produzir um romance. “É capaz de sair coisa muito boa”.

Em outra carta, ele volta a mostrar descrença no apoio do setor público à criação da biblioteca. “O Poder Público não colaborará, porque o Poder Público em nossa terra é a própria Sujeira Organizada”, disse Lobato.

“A nossa Ordem Social é uma coisa tão suja e sórdida que o meu consolo hoje é um só: saber que vou morrer e afastar-me ab aeternitate da sujeira”, afirmou o escritor em outro trecho da mensagem feita em máquina de escrever, no dia 20 de dezembro de 1943.

CONTRA A ELITE.

Pedro Rubim, um dos idealizadores do Almanque Urupês e grande conhecedor das obras de Monteiro Lobato, também ressalta que a bronca do escritor nunca foi com a cidade, mas contra quem a comandava.

“Pessoal no poder é quem sempre abominou a obra dele. E esse anti-Taubaté não é contra a cidade, mas contra essa elite que ele conhecia muito bem. Ele está se insurgindo contra esse povo que ele conhece nos pormenores”, explica Rubim a OVALE.

Criação do Jeca Tatu inicia conflito entre Lobato com a elite taubateana

Pedro Rubim, um dos idealizadores do Almanque Urupês e grande conhecedor das obras de Monteiro Lobato, ressalta que Monteiro Lobato é um filho autêntico de Taubaté, neto do Visconde de Tremembé, um dos homens mais ricos e poderosos da cidade. Com a morte do avô, Lobato herda uma fazenda de Buquira, atual cidade de Monteiro Lobato, e é lá que formula o Jeca Tatu, que é num primeiro momento uma figura depreciativa, que desconta a neurose de um fazendeiro falido na figura de um pequeno plantador, um caipira da região. Nas obras seguintes, já muda de ideia sobre essa criação, que era a elite que ele representava. “E escreve as obras seguintes que ele faz uma crítica às elites. Ele vira um Onbudsman e essa elite se volta contra ele, tanto que essa Câmara, em 1922, faz uma ata onde condena a obra dele e a partir de então a relação dele com a cidade, dessa elite, passa a ser conflituosa”, disse.