Já foi dito que o passado é imprevisível. Diego Amaro, mestre em História Social pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, professor e presidente do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos), usa o passado para fazer alertas sobre o futuro.
Como a pandemia voltou, depois de terem dito que o mundo nunca mais teria algo como a gripe espanhola em 1918, Amaro diz que a ditadura também pode voltar no Brasil. Ele condena quem pede o retorno do regime militar: "Não sabem com o que estão mexendo". Leia os principais trechos da entrevista a OVALE. Confira:
O novo ministro da Defesa, general Braga Netto, disse que é preciso celebrar o golpe de 1964 como um movimento que permitiu "pacificar o país". Concorda?
Em hipótese alguma. Tenho respeito pelos militares, mas não pelo golpe. O que existia na época era uma ideia de um fantasma do comunismo. Jango [João Goulart, presidente] era trabalhista, não comunista. A sombra que estava em torno era o fato de ele ter ido para a China. Isso macula o Jango. E começa um fantasma do comunismo. Assombrados, setores da sociedade conclamaram o Exército, que acabou atendendo a isso. Foi como um fantasma, não há parecer de realidade e não tinha lastro algum de comunismo.
Para o general, o Brasil enfrentava "ameaça real para a democracia". O que acha?
Não tinha nada disso. E o curioso é que o golpe foi no dia 1º de abril. E eles acabaram utilizando o 31 de março. Eles recuaram para não coincidir com o dia da mentira. Diz muita coisa.
O período ditatorial é pouco compreendido?
Foi pouco compreendido.
Faltam informações. Não se pode negar que houve crescimento no país. Teve abertura de universidades, mas tem outros problemas, de cunho de direitos humanos, liberdade de expressão. Tem desenvolvimento com alto custo, com endividamento. Pouca gente sabe, mas foram emitidos 17 atos institucionais, que legitimavam o poder da ditadura. Eles criam uma visão e garantia do que o que acontecia era normal, ampliando os poderes do Executivo, que fazia o que bem entendia. Em 1968 vem o AI-5 e só piora.
E aqueles que pedem a volta da ditadura?
Eles não sabem com o que estão mexendo. Entendo o que as pessoas estão conclamando, que é a moralização. Elas associam isso à militarização. É compreensível, mas esse é o caminho errado.
Sou contra militares no governo, porque pode ser que precisemos deles para dissolver algo do próprio Estado. Eles precisam garantir a Constituição.
É absurdo ter mais militares no poder hoje do que na época da ditadura. Não se nega a importância das Forças Armadas. Elas protegem as divisas, fazem missões humanitárias. Mas o fato de estar no seio do governo compromete, por ser parte interessada. Não funciona.
A demissão dos comandantes das Forças Armadas revela tentativa do presidente Bolsonaro de interferir?
Para mim, isso revela o fato de eles estarem intimamente envolvidos com o governo e que, por isso, sentem qualquer ação com uma forma de repreensão. E um capitão não manda em um general. Existe hierarquia, e isso fica confuso para eles no governo. Esse episódio aconteceu porque eles se sentiram ofendidos, porque são parte do processo e deveriam ter sido consultados. Não ficou clara as razões da demissão do ministro da Defesa. O recado dos comandantes ao presidente foi: 'Não estamos mais com você'.
O presidente já disse que queria o Exército nas ruas para controlar governadores. Vê risco à democracia?
Há governadores ultrapassando os limites da Constituição. Ela tem que ser respeitada. Posso divergir da Constituição, mas não desrespeitar. A Constituição é manual de como tudo tem que funcionar. O presidente tem seu poder e o governador também, e um não pode interferir no poder do outro. Como a coisa está tão quente fica difícil parar e fazer essa reflexão. Se levar o Exército para a rua, pode causar um grande dano, por isso acho que é da boca para fora. O que o presidente está fazendo é ameaçar, porque está se sentindo ameaçado pelos governadores. Vejo como mais uma ameaça do que algo palpável. Se Bolsonaro fizesse metade das coisas que ameaçou fazer...
Um parlamentar tentou ampliar os poderes de Bolsonaro. Como viu isso?
Uma tentativa de golpe, mas não muito clara. Os congressistas não conhecem a legislação. O mínimo que deveriam fazer era estudar a Constituição e a legislação. Quando se usa uma pílula dessa e não tem ideia do que está fazendo, pode provocar um golpe. Foi uma coisa feita sem análise.
O que a história dirá do Brasil de 2020 e 2021?
Volto na gripe espanhola. O Brasil também estava polarizado naquela época. Não é diferente agora. Ficou pior porque a pandemia explodiu, mas já tivemos H1N1, dengue, hoje é muito parecido com o começo do século 20. Não sabemos lidar, as informações chegam comprometidas, não sabemos em quem acreditar. Muita gente acreditava que era impossível repetir uma pandemia como a gripe espanhola, assim como acham que é impossível a volta da ditadura. Mas pode voltar, sim. Muita gente falava que tínhamos superado a era das pandemias. Isso serve para as ditaduras também.