08 de julho de 2026
Viver

adeus, dona ivone

Por Da Redação@jornalovale |
| Tempo de leitura: 2 min
Capa viver

O marido, enciumado, não quis que ela se dedicasse à música. Bom, não havia também no terreiro das agremiações cariocas espaços para as mulheres. Mas, apaixonada por aquele batuque que mexe com a alma de tanta gente, esperta, Yvonne Lara da Costa começou a apresentar suas composições como se fossem de seus primos.

Aos poucos, ganhou seu espaço. Primeiro no Prazer da Serrinha, depois no Império Serrano. E seu nome despontou, devagar, sem alarde, resultado de seu trabalho, de seu amor genuíno pela arte.

Seu primeiro disco veio só aos 56 anos. Nunca foi campeã de vendas, mas suas composições estavam na boca do povo: "Sonho meu", "Acreditar", "Os cinco bailes da história do Rio", "Alguém me avisou" e "Enredo do meu samba", entre tantos outros sucessos.

Sabia como ninguém curar a dor do amor. Dom que tem a ver com sua outra especialidade: a enfermagem. Trabalhou por muito anos com a psiquiatra Nise da Silveira, profissional que se dedicava a encontrar formas humanas de tratamentos para doentes mentais. O samba como profissão falou mais alto apenas em 1977, quando Yvonne largou o hospital para se dedicar à carreira artística.

Passou a ser chamada de Dona Ivone Lara. Foi abraçada pela turma da MPB. Serviu de guia para Leci Brandão, Beth Carvalho, Alcione e Jovelina Pérola Negra, entre tantas outras. Ouviu suas canções na voz de Caetano Veloso, Arlindo Cruz, Paulinho da Viola, Marisa Monte, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa.

Do compositor Hermínio Bello de Carvalho ganhou o título de "Primeira Dama do Samba". Nos braços da rádio e da TV, ela está ainda na memória coletiva como intérprete da Tia Nastácia no especial "Sítio do Picapau Amarelo" (1982), inspirado na obra do taubateano Monteiro Lobato.

Fato: Dona Ivone cravou sua história na música brasileira, na luta pelos direitos das mulheres e no movimento negro. Despediu-se da vida na noite de segunda-feira (16), aos 96 anos, no Rio de Janeiro - ela estava internada desde a última sexta-feira (13), com um quadro de anemia. Seu corpo foi velado na manhã de ontem na quadra de sua escola do coração, Império Serrano.

Foi sepultada sob aplausos.

Homenagens.

"Nós mulheres, cantoras, brasileiras, sempre seremos agradecidas pela porta aberta pelo seu talento, sua força e sua voz!", escreveu Zélia Duncan em rede social. "Muito obrigado por tudo", disse Zeca Pagodinho.

"Que a senhora continue sendo luz, e olhe por nós aí de cima. Continue com a sua missão de abençoar, ninar, embalar o samba. Para nós, uma perda inestimável, para sua matéria, talvez um descanso", afirmou Arlindinho Cruz, cantor, filho do também sambista Arlindo Cruz.

"Seu exemplo e seus sambas extraordinários continuarão a fortalecer as mulheres, os negros, o Brasil e o povo brasileiro", ressaltou Daniela Mercury. "Descanse em samba", desejou o ator Lázaro Ramos..