12 de maio de 2026
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Semana de Arte Moderna de 1922 completa 100 anos e mantém polêmicas

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 3 min
Arte. Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922

Polêmica boa dura 100 anos.

A Semana de Arte Moderna de 1922 chega ao centenário provocando intensos debates no Brasil.

O evento que marcou a arte paulista, e a brasileira, tem raízes no Vale do Paraíba numa estranha história de canibalismo, depois utilizado como metáfora da criação artística.

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No tempo histórico, a Semana de 22 ocorreu em São Paulo, entre 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da capital, então uma cidade com menos de 600 mil habitantes.

O evento ocorreu em época de turbulências políticas, sociais, econômicas e culturais. Surgiam no mundo novas vanguardas estéticas e novas linguagens desprovidas de regras.

Alvo de críticas e em parte ignorada, a Semana não foi bem entendida em sua época. Ela trazia renovação de linguagem, busca de experimentação, liberdade criadora da ruptura com o passado e até corporal, com a arte passando para o modernismo.

Participaram nomes como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti.

“O impacto naquele momento foi restrito, porque poucas pessoas tinham conhecimento do que estava sendo proposto, um evento municipal”, avaliou Moacir José dos Santos, doutor em História e professor da Unitau (Universidade de Taubaté).

Segundo ele, a Semana de 22 foi se estabelecendo ao longo do tempo. “Pela repercussão, começou a ganhar, nos meios intelectuais e na imprensa, como marco”.

“O papel da Semana de 22 foi exatamente iniciar uma mobilização de intelectuais, jornalistas, enfim, de personalidades em torno dos estímulos que vinham da arte europeia.”

O conceito por detrás do evento, na avaliação de Santos, era o de interpretar o Brasil, movimento que gerava intenso debate público naquela época.

Esse “fervilhar intelectual” é o caldeirão em que se insere a Semana de 22, que ganha relevância ao longo do tempo, “por conta da persistência desse debate e até pela centralidade que o estado de São Paulo tinha”.

Para a arquiteta Ana Maria Botelho, doutora em Multimeios, artista multimídia e coordenadora do curso de Artes e Mídia da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), a Semana de 22 traz ao Brasil o que acontecia na Europa, as vanguardas.

“Cubismo, dadaísmo, expressionismo. Ainda o Brasil estava trabalhando com as artes do Parnasianismo, uma arte acadêmica. Então, esses artistas que participaram da Semana são importantes porque trazem uma nova visão das artes, que vai questionar toda a arte acadêmica. Da representação, do uso das cores, das técnicas, do tema, do conteúdo. É importante por isso.”

Doutor em Comunicação e Semiótica e professor de História no Departamento de Jornalismo da Unitau, Robson Bastos lembra que a Semana de 22 era um evento de elite, sem repercussão no povo.

“Era uma parte da sociedade que tinha essas preocupações intelectuais e artísticas. Mas a comunicação foi vital para unir essas pessoas. Até hoje nós podemos ter uma visão da semana pelos jornais e revistas.”

Segundo ele, o centro cultural do país em 1922 era o Rio de Janeiro, e não São Paulo, o que serviu para nublar o movimento artístico, o que gera debates até hoje.

O escritor Ruy Castro é enfático ao minimizar a importância da Semana, dizendo que se tratou de “arrombar uma porta que já estava aberta”. Para ele, o Rio era moderno antes de São Paulo ser modernista.

Para ele, o movimento teve mais “força da propaganda e das frases feitas”, uma delas de que a Semana teria sido um rompimento. “Mas rompimento com quê?”, questiona Castro, afirmando que já se fazia no país o que os ‘modernistas’ alegavam inaugurar com o evento paulista.

Polêmicas à parte, um dos principais conceitos derivados da Semana materializou-se no ‘Movimento Antropofágico’, que defendia que as referências estrangeiras fossem canibalizadas e depois regurgitadas em arte brasileira original.