10 de julho de 2026
Esportes

Maratona de jogos na volta do futebol expõe risco de lesões e contágio pela Covid-19

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bola covid

O Brasil tem, em média, mais de 1.000 mortes diárias por conta do novo coronavírus, número que vem se mantendo já há várias semanas. Em vários estados e regiões, o número de casos até aumentou, como nos estados do Sul do Brasil, por exemplo. Porém, mesmo com o cenário da pandemia, com parte do comércio fechado e milhares de pessoas internadas, lutando contra a doença, o futebol está voltando com tudo no país.

O Campeonato Carioca, pioneiro, já voltou e já encerrou nesta última quarta-feira. Em Santa Catarina, voltou e parou uma rodada depois. Tudo por conta dos 14 casos positivos de Covid-19 no elenco da Chapecoense. Até mesmo o presidente da Federação Catarinense de Futebol se contaminou.

Em São Paulo, a bola volta a rolar no dia 22 de julho para as duas últimas rodadas da primeira fase e depois mais quatro datas para o mata-mata. No Ceará, onde o estado ainda contabiliza muitos casos e já chegou até mesmo a ter colapso no sistema de saúde no início da pandemia, a bola também voltou e teve até jogo às 9h da manhã de uma segunda-feira. Tudo para encaixar o calendário e também poder realizar a fase final da Copa do Nordeste, que será disputada em sede única, em Salvador.

Mal terminam os estaduais e já começa o Campeonato Brasileiro. Inicialmente previsto para maio, a competição será disputada a partir de 9 de agosto, com encerramento previsto para 24 de fevereiro, depois do carnaval (se é que vai ter carnaval).

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e as federações estaduais prometem muito rigor nos protocolos de segurança. Estádios sem torcidas e até mesmo com limite no número de profissionais de imprensa permitidos para acompanhar as partidas. Os testes de Covid-19 nos atletas vêm sendo feito com regularidade – em São Paulo, vários jogadores já testaram positivo, como o volante Cantillo, do Corinthians, e o técnico Vanderlei Luxemburgo, do Palmeiras.

Para Fernando Bizarria, médico especialista em imunologia e pneumologia, o retorno do futebol no Brasil é precipitado. “Estamos ainda no pico da doença, com uma média de mais de mil mortes por dia. Entendo que o futebol é a paixão de muitos brasileiros, mas dava para se esperar um pouco mais. Nos países Europeus, os jogos de futebol voltaram quando os casos de coronavírus diminuíram e quando o número de mortes caiu muito”, disse ao OVALE.

“O teste rápido é indicado apenas entre o sétimo e décimo dia do início dos sintomas, como febre e tosse. O Ministério da Saúde apontou obstáculos no Guia para Retomada Progressiva, elaborado por médicos de clubes e da CBF. O principal deles é a escassez de testes rápidos diante da escalada da doença em todo o país. É muito difícil, pois a CBF tem que garantir a realização dos testes e avaliações constantes não apenas nos atletas, mas também que seja ofertado aos membros das comissões técnicas, funcionários e colaboradores, assim como respectivos familiares e pessoas próximas. Impossível, ao meu ver”, ressalta.

O médico entende que, já que o futebol está de volta, quem estiver no banco de reservas ou dentro do estádio precisa ficar de máscara. “Testes e uma avaliação semanal nos clubes do futebol. É muito importante essa fiscalização e periodicidade”, ressalta.

PREPARAÇÃO FÍSICA.

Além da questão da Covid-19, um outro problema ameaça os jogadores: as lesões. No caso dos times do Paulistão, por exemplo, os atletas ficaram mais de três meses parados, entre 15 de março e 1º de julho. Agora, têm 22 dias para entrar em forma novamente. O fisiologista Fabiano Barros, que já trabalhou no São José e no Taubaté, aponta para o grande risco de lesão nos jogadores durante este retorno.

“A gente está vendo os atletas parados há mais de 90 dias. Eles estão treinando em casa, mas a gente sabe que não é a mesma coisa, não é a mesma estrutura. Dificilmente todos têm espaço que dê para simular trabalho com a mesma dimensão. É melhor do que ficar parado, mas é difícil você representar o que eles tem no dia a dia do clube, em casa ou no condomínio. A gente sabe que tem um prejuízo”, disse.

“Do ponto de vista fisiológico, o risco é ter um tempo muito curto para trabalhar todas as valências físicas necessárias. Existem algumas sequencias de valência física que são importantes, pois uma acaba completando a outra. Então, com esse pouco tempo, você acaba atropelando uma valência para começar a trabalhar outra, especialmente a parte específica de campo. O treinador quer coletivo, jogos-treinos e esse atropelo, que a gente chama de fase competitiva precoce, e que aumenta principalmente os riscos das lesões musculares”, explica.

“Na Alemanha, vários clubes tiveram lesões musculares. É esperado que os clubes tenham esse tipo de lesão nesse retorno. E outras lesões podem surgir, como um trauma de joelho, um choque de cabeça”, disse Barros, ressaltando também que os clubes pequenos tendem a sofrer mais, pois muitos voltaram a treinar depois.

Esse ponto que coloquei: o que acontece muito, é que os treinadores vão trabalhar sua parte específica, de campo, tática, para voltar os jogos e atrapalha um pouco a parte do preparador física. A gente sabe que existem riscos.