Em sessão da Comissão Mista de acompanhamento das ações de combate ao coronavírus no Congresso, nesta quinta-feira, governadores defenderam a emissão de papel moeda pelo governo federal para conter os danos gerados pela pandemia e auxiliar no financiamento para frear a covid-19.
Durante a reunião, deputados e senadores interpeleram os governadores Renato Casagrande (PSD), do Espírito Santo; Waldez Góes (PDT), do Amapá; e Mauro Mendes (DEM), do Mato Grosso. Os gestores criticaram a falta de coordenação por parte do governo federal na condução da crise e relataram a dificuldade para realizar compra de medicamentos necessários para tratamento dos pacientes.
"Nenhum outro ente pode emitir e colocar dinheiro novo no Brasil que não seja o governo federal, através do apoio do Congresso. Nós (estados) não temos esse poder e numa situação dessa, o exemplo em todo o mundo é o governo central emitindo dinheiro novo, se valendo das possibilidades que tem legalmente para assistir toda sua gente", argumentou Waldez Góes. "Alguns países vão a mais de 15% do PIB e outros a menos, mas todos que colocam é porque a única medida capaz de mitigar efeitos em uma situação como essa, para ser adotada em escala mais firme e capaz, vem do governo central. E para vir do governo central o Congresso é a fala mais próxima para enriquecer uma proposta".
O governador do Espírito Santo, também mencionou a estratégia de emitir moeda e argumentou que os efeitos econômicos da crise são graves. Segundo ele, os impactos da pandemia ocorrerão a médio e longo prazo.
"Os efeitos econômicos são muito fortes, vamos precisar continuar tomando medidas de redução do impacto da pandemia . Os estados têm um papel, mas um papel secundário, porque quem tem poder de emitir moeda e aumentar déficit é a União, o poder central. Eu não tenho, meu dinheiro acabou, acabou. Essa união é importante que aconteça pela dimensão do impacto da pandemia no nosso país", defendeu.
Ao longo da audiência pública, os governadores destacaram a falta de articulação do governo federal na condução da crise e relataram a ausência de uma coordenação central para frear a disseminação do novo coronavírus, a exemplo do que acontece em outros países do mundo.
"Trocar três ministros da saúde em um período tão crítico não é algo razoável. Espero que o governo federal possa pacificar isso", afirmou Mauro Mendes, governador do Mato Grosso. "É preciso uma liderança que una o país para construir soluções coletivas, porque no Brasil a força do poder público é muito maior".
A opinião foi compartilhada pelos gestores dos outros estados presentes na sessão. Segundo Casagrande, do Espírito Santo, o comportamento do presidente atrapalha os estados no combate à doença.
"Sentimos ausência do governo federal. O governo poderia estar numa coordenação mais ampla de enfrentamento à pandemia, com orientação e palavras na mesma direção dos governadores e diversos prefeitos. O enfrentamento provocado pelo presidente da República acabou dificultando nosso trabalho, nós pregamos um comportamento de isolamento e o presidente tem outra visão e seu dia a dia mostrou isso. Isso causou estresse", criticou Casagrande. "A palavra do presidente é muito forte, é o líder maior desse país e quando ele vai a eventos quando pedimos para ninguém ir, cria um ambiente no qual as pessoas ficam em dúvida".
Aquisição de medicamentosOs governadores relataram dificuldade em obter medicamentos para o tratamento do novo coronavírus, sobretudo os que são utilizados na UTI.
"Temos uma realidade muito dura, falta medicamentos, os preços explodiram e gestores estão com medo de comprar para depois não ter que responder eternamente a ações de improbidade", afirmou Mauro Mendes, do Mato Grosso.
De acordo com o governador do Amapá, Waldez Góes, os estados construíram também um documento conjunto para articular a aquisição de Kits de entubação com intermediação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e encaminharão ao governo e ao Congresso ainda nessa semana.
"Devemos muito reconhecimento ao debate que deputados e senadores travaram, melhorando a iniciativa do executivo no que diz respeito às medidas (para conter a pandemia)", disse Góes.