11 de julho de 2026
Brasil

Sob críticas, Funai é alvo de disputas políticas no governo federal

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 3 min
Indígenas

Rio —  Criticada pela falta de ação na prevenção e no combate ao coronavírus nas aldeias, a Funai (Fundação Nacional do Índio) tornou-se alvo de disputas políticas dentro do governo federal. Após o Planalto cobrar uma agenda positiva — depois da repercussão do manifesto organizado pelo fotógrafo Sebastião Salgado para que os Três Poderes evitem um extermínio de indígenas por causa da pandemia —, a Funai disputa com a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) para ver quem sai "melhor na foto" com a distribuição de cestas básicas.

Nos bastidores, essa briga para mostrar serviço tem como pano de fundo um interesse da ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, em indicar um nome próximo a ela para o comando da Funai. Seu favorito é Robson Santos da Silva, atualmente à frente da Sesai. A reportagem apurou que Damares ainda não se conformou em perder a Funai para o Ministério da Justiça — o Congresso devolveu o órgão à pasta de origem.

No comando da Funai, Marcelo Augusto Xavier tem evitado participar de eventos onde a Sesai está presente, segundo servidores que trabalharam até recentemente com ele. Xavier teria chegado ao ponto de proibir assessores em agendas conjuntas dos dois órgãos. Um dos episódios que deixaram o presidente do órgão furioso foi a participação de Damares na entrega de cestas básicas nas aldeias. Ex-auxiliares de Xavier disseram que ele passou a querer dar uma resposta positiva para as cobranças do Planalto e delegou poderes ao seu chefe de gabinete, Fredson Ferreira Gomes, para realizar uma reformulação no órgão. Nos últimos três meses, ao menos dez servidores foram exonerados.

Enquanto disputam entre si, Funai e Sesai acumulam críticas fora do governo. Em encontros de "notáveis", que contaram com a participação do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, do procurador-geral da República, Augusto Aras, de subprocuradores do MPF (Ministério Público Federal), lideranças indígenas, empresários e do fotógrafo Sebastião Salgado, a atuação dos dois órgãos tem sido questionada.

O subprocurador da República Antonio Bigonha esteve na reunião e defendeu que Funai e Sesai participassem para que fossem cobradas diretamente. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afirma que por se tratar de uma "reunião de escuta" não convocou integrantes do governo. Bigonha diz que desde meados de março os órgãos foram cobrados para apresentar um plano de contingência para combater o Covid-19 nas aldeias, mas até hoje não apresentaram.

"Planos de contingência são documentos formais. Se a Funai e a Sesai dispõem desses planos, por que não os exibem ao MPF e aos próprios indígenas?", questiona.

Em nota, a Funai afirma que trabalha em conjunto com a Sesai no combate à Covid-19 nas aldeias, inclusive na distribuição de cestas básicas. Segundo o órgão, já foram destinados R$ 22,7 milhões para o combate ao coronavírus nas aldeias. A Sesai diz que trabalha com a Funai "especialmente" em relação à organização de barreiras sanitárias para o controle de circulação de pessoas em terras indígenas. A ministra Damares Alves e o secretário Robson dos Santos não se pronunciaram.