11 de julho de 2026
Brasil

Ao contrário do anunciado, ministro da Educação não concluiu doutorado na Argentina, diz reitor

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 3 min
Carlos Alberto Decotellir

Um dia após ser anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro, com destaque para seu currículo acadêmico,  novo ministro da Educação Carlos Alberto Decotelli teve sua formação posta em xeque pelo reitor da Universidade Nacional de Rosário, Franco Bartolacci. No Twitter, o reitor republicou o post do presidente e afirmou que Decotelli "não obteve a titulação de doutor mencionada no comunicado".

Em entrevista ao GLOBO, o reitor Franco Bartolacci explicou que Decotelli estudou na instituição, completou a carga horária, mas não finalizou o curso para obter a titulação.

"Ele cursou o doutorado, mas não finalizou. Falta a aprovação da tese, que é requisito indispensável para a conclusão", disse Bartolacci.

O GLOBO entrou em contato com o MEC, que afirmou que o ministro concluiu em fevereiro de 2009  todos os créditos do doutorado em Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas e Estatística da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina.  O órgão encaminhou à reportagem o certificado de conclusão dos créditos por parte do ministro, no entanto, não respondeu se além de cumprir a carga horária das disciplinas, Decotelli defendeu sua tese na universidade, critério para obter a titulação.

De acordo com o reitor da Universidade Nacional de Rosário, o certificado mostra apenas a conclusão do curso, mas não a obtenção do título de doutor, para o qual é necessário defender a tese.

No currículo Lattes do ministro, Decotelli informa que Antônio Freitas, que é professor da FGV e presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE)  foi seu orientador no doutorado na Universidade Nacional de Rosário. Freitas, no entanto, nunca pertenceu aos quadros dessa universidade, tampouco há registros de sua participação em bancas de doutorado presenciais ou virtuais. O professor poderia atuar como docente visitante, mas não há registros de que tenha sido contactado pela instituição. O GLOBO entrou em contato com Antônio Freitas mas ele preferiu não comentar o caso.

A indicação de Decotelli para o MEC teve repercussão positiva principalmente pelo histórico acadêmico do novo ministro. Além da Universidade Nacional de Rosário, GLOBO entrou em contato com a Bergische Universität Wuppertal, na Alemanha, onde ele afirma ter cursado pós-doutorado, mas não obteve resposta até o momento. A FGV confirmou que o ministro concluiu seu mestrado na instituição, mas não respondeu se ele tem especialização na instituição e doutorado.

Decotelli não é a primeira figura pública a ter o currículo contestado. No ano passado, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel reconheceu ter incluído indevidamente na plataforma Lattes uma passagem pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, durante o seu doutorado, no formato "sanduíche".

Em 2009, a ex-presidente Dilma Rousseff também foi alvo de contestação quando incluiu em seu currículo um mestrado e doutorado inexistentes. Na época, quando ainda era ministra da Casa Civil, o site do ministério afirmou que Dilma era " mestre em teoria econômica pela Unicamp (Universidade de Campinas) e doutoranda em economia monetária e financeira pela mesma universidade", mas depois corrigiu informando que a então ministra havia sido aluna da instituição e concluiu os créditos, mas sem obter o título.