O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga disse nesta quarta-feira que o país não pode mais conviver e ser conivente com o desmatamento da Amazônia.
Durante apresentação no Conselho de Líderes do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, composto por CEOs de 60 dos maiores grupos empresariais do país, ele disse que o país necessita reverter a tendência de desmatamento na região, crescente nos últimos anos.
"Não dá mais para cortar árvore", afirmou Fraga "A Amazônia está mal, precisamos urgentemente reverter essa tendência (de desmatamento)".
Fraga participou do evento ao lado de Pedro Malan, ex-presidente do Banco Central e da Fazenda. Os dois fazem parte do grupo de 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do BC signatários da carta defendendo a uma retomada da economia brasileira atenta às mudanças climáticas e o fim do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
Para os dois economistas, é preciso pensar a exploração dos recursos naturais da Amazônia de forma sustentável, pensando nos desafios do desenvolvimento humano na região. No entanto, ambos criticaram a falta de estratégia do governo para isso.
Em junho, o desmatamento na Amazônia quebrou mais um recorde na série histórica do mês e chegou a 1.034,4 km² devastados, segundo números do sistema Deter do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O índice é 10,6% maior do que o registrado no mesmo período, em 2019.
Segundo Fraga, o país está próximo de uma situação de alerta na região, sendo necessário pensar muito além do fim do desmatamento ilegal.
"Está faltando estratégia, é fundamental não abrir mão de reflorestar. As melhores análises científicas dizem que estamos perto de um ponto em que o solo não volta. Do ponto de vista de gestão de risco, estamos mal. Não é suficiente acabar com o (desmatamento) ilegal, é preciso reflorestar", ressalta Fraga.
Para o economista, no entanto, o governo adota uma postura "obscurantista" e pouco preocupada com as conclusões obtidas por meio de evidências.
"É um governo refratário das admissões da ciência, obscurantista, isso se mostra na pandemia, onde chegamos atrasados".
Na segunda, o ministro da Economia, Paulo Guedes, saiu em defesa da política ambiental do governo ao afirmar que o Brasil "alimenta o mundo, preservando o meio ambiente". Guedes admitiu, no entanto, a possibilidade de corrigir erros neste segmento.
Investidores internacionais e nacionais têm mostrado insatisfações diante dos alto níveis de desmatamento e queimadas na Amazônia, o que gera preocupação na equipe econômica de uma possível fuga de recursos causada pela má avaliação de gestores de fundos estrangeiros e nacionais sobre a política ambiental brasileira.
Na avaliação de Malan, o monitoramento do desmatamento feito por órgãos da União, como o Inpe, e cobrança das empresas pelo fim do desmatamento da região é essencial para que o governo se comprometa efetivamente com a pauta.
"Monitorar esse avanço agora é essencial, vejo com satisfação que é um número grande de empresas que incorporam isso, tanto internacional como nacional", ressaltou.
Em documento publicado na terça, a SPE (Secretaria de Política Econômica) considerou que o recorde de desmatamento em junho pode ter sido uma "variação conjuntural" e não deve ser considerada por investidores para julgar a política ambiental brasileira.