10 de julho de 2026
Brasil

Mais da metade dos tratamentos de câncer em curso sofreu alterações na pandemia, diz pesquisa

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 4 min
Saúde

Mais da metade (53%) dos tratamentos de câncer em curso no país sofreu alterações durante a pandemia, mesmo com a recomendação de especialistas alertando que a doença é considerada emergencial e as medidas terapêuticas não devem ser interrompidas ou alteradas. A pesquisa é parte do movimento "O câncer não espera", que reúne diversas entidades e sociedades médicas, e ouviu profissionais que trabalham no SUS e em instituições privadas, de 8 de abril até 26 de junho.

No sistema público, a situação é ainda mais grave: 68% dos pacientes tiveram tratamentos alterados. No privado, o número foi de 38%. Entre as alterações ocorridas no SUS - seja cancelamento, seja remarcação -, estão exames (72%), consultas (60%) e até sessões de quimioterapia (15%) e radioterapia (18%), aponta a pesquisa.

Houve também redução de 70% no número de cirurgias oncológicas realizadas na pandemia, estima a SBCO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica), o que explica parte dos 70 mil diagnósticos que deixaram de ser realizados no mesmo período, aponta a SBP (Sociedade Brasileira de Patologia).

Segundo Alexandre Ferreira Oliveira, presidente da SBCO, a falta de medicamentos, que estão sendo usados para tratamento da Covid, mas são também essenciais para exames e cirurgias oncológicas, como colonoscopia e biópsias, fez com que muitos procedimentos fossem cancelados ou remarcados.

- Com isso, muita gente teve que alterar o seu tratamento e outras tantas pessoas nem chegaram a ser diagnosticadas. Também contribuiu leitos que seriam usados para cirurgias oncológicas estarem ocupados por pacientes da Covid-19 e locais que fazem exames importantes, como de radiologia, fecharem ou passarem a atender os atingidos pelo coronavírus. Tudo isso retardou os diagnósticos e alterou o tratamento de quem já está com a doença, não só pela demanda aumentada, mas também porque levou muitas pessoas a evitar ir esses locais.

Um levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) já havia apontado que em 22 unidades da Federação há estoques zerados de ao menos um medicamento sedativo. Segundo Oliveira, com a alta demanda mundial pelas drogas, os preços subiram, o que inviabilizou a compra por entidades filantrópicas, alguns hospitais e mesmo na rede pública.

O médico disponibilizou uma tabela com os valores que são repassados ao SUS: antes pagava-se R$ 3,31 no Midazolam 50mg. Agora o custo é de R$ 23,94. O Suxametonio de 100mg, que antes custava R$ 8,92, subiu para R$ 28,94. E vários medicamentos, como a Atropina, não estão sendo encontrados.

Protocolo defasado do SUS também contribuiu para interrupções nos tratamentos, diz médico

Segundo Bruno Ferrari, presidente do Conselho de Administração do Grupo Oncoclínicas, que também faz parte do movimento, a pandemia acentua e mostra as desigualdades no acesso à saúde no Brasil: ele afirma que o protocolo de tratamento do sistema público esta defasado, o que também pode ter influenciado os números:

"Há hoje drogas orais para o tratamento de alguns tumores, como o de mama, que ainda não estão no sistema público, mas já no privado. Ele poderia ser uma solução para milhares de pessoas que não precisariam se expor nos hospitais nem interromper o tratamento, por exemplo".

Ele reforça que, apesar de alguns pacientes oncológicos estarem no grupo de risco para desenvolver a versão mais grave da Covid, o tratamento, como a quimioterapia, e os exames não devem ser interrompidos na maior parte dos casos:

"A pandemia é grave e não podemos subestimá-la. A questão dos leitos do SUS não é um problema de agora e é natural que estejam sendo usados para os casos de Covid-19. Mas precisamos lembrar que o câncer não espera e, em alguns casos, uma diferença de um ou dois meses pode fazer toda a diferença não só nas chances de cura, mas também em tratamentos mais amenos, que não atrapalhem tanto a qualidade de vida das pessoas. É necessário um esforço das entidades públicas muito ma ior do que está sendo feito até agora para melhorar as condições de acesso com segurança aos hospitais e clínicas, melhorando os protocolos de limpeza, higienização e distanciamento social".

A campanha "O câncer não espera" é uma Iniciativa do do Instituto Oncoclínicas com a SBRT (Sociedade Brasileira de Radioterapia), a Sociedade Brasileira de Patologia, a Sociedade Brasileira de Mastologia, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia, a Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer, oInstituto Oncoguia  e o Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.