11 de julho de 2026
Brasil

Perserguidos durante a ditadura relatam traumas e engrossam coro em defesa da democracia

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Ditadura

“Quando o torturador vinha, ele balançava as chaves da cela. Fiquei traumatizado. Passei anos sem poder escutar barulho de chaves”.

Esse foi um dos traumas que Ariston de Oliveira Lucena carregou até o fim da vida, quando morreu em 2016. Ele, que trabalhou por anos em Taubaté, dizia que tinha pesadelos recorrentes e herdara da ditadura problemas como diabetes, hipertensão e câncer.

Lucena lutou contra o regime militar e foi preso e torturado.

Foi um dos poucos brasileiros condenados à pena de morte, mesmo tendo 17 anos. Saiu da cadeia depois de 10 anos. Nunca mais se recuperou.

Se vivo fosse, dizem amigos, Lucena participaria de movimentos em defesa da democracia ao lado de tantos outros perseguidos pelo regime militar, muitos deles do Vale do Paraíba.

Com cada vez mais adesão, esses movimentos ganham contornos nacionais e reforçam a luta em defesa da democracia, a exemplo do ‘Diretas Já’, movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas que tomou o Brasil em 1983 e 1984.

A sociedade civil começa a reagir à ameaça antidemocrática representada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e grupos que o apoiam, cada vez mais violentos e beligerantes.

“Não posso esperar nadar melhor do atual presidente. Trata-se de um homem desqualificado para o cargo e que tem posições políticas de extrema-direita, às quais estão fadadas ao fracasso. O povo irá resistir”, diz João Bosco da Silva, economista e ex-vereador de São José dos Campos que foi perseguido durante a ditadura por sua militância política e no movimento negro.

AUTORITÁRIO.

Desde o início da pandemia do coronavírus, ao invés de liderar o país para superar a doença, Bolsonaro acentuou o discurso antidemocrático, tencionando as cordas e as relações institucionais.

A sociedade reagiu.

Movimentos em defesa da democracia estão se consolidando nacionalmente, como o ‘Somos 70%’, que nasceu em um sítio de Jacareí, e o ‘Direitos Já - Fórum Pela Democracia’.

Acuado por uma série de escândalos, Bolsonaro reduziu o tom das ameaças antidemocráticas nos últimos dias.

Além disso, pesquisa do Datafolha mostra que 75% concordam que a democracia é a melhor forma de governo.

A taxa de apoio à democracia é recorde e superou o índice de outubro de 2018, mês da eleição presidencial, quando era 69%. Apenas para 10%, em certas circunstâncias, uma ditadura é melhor do que um regime democrático.

HISTÓRIA.

Jurista, professor e relator e coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari vê com preocupação a quantidade de jovens apoiando a volta da ditadura, onda que ele atribuiu a desconhecimento e negação da história.

“A ditadura não pode ser comparada, é o que há de pior. Peguei uma repressão muito violenta, por isso não se deve comparar. Muito triste [ver jovens apoiando] porque não se pode ignorar o mal que a ditadura gerou no Brasil.”

Ele não poupa críticas e pede a saída do presidente Bolsonaro, especialmente por apoiar movimentos antidemocráticos. “Com ele, o risco de caos social é enorme”.

E completa: “Desde a redemocratização, de 1985 para cá, mesmo nos momentos em que houve radicalização política e disputas eleitorais agudas, não me recordo de ver o próprio governo incentivar a violência a jornalistas. Não tem paralelo. Nunca vi”.

Dallari vê com bons olhos os movimentos que surgem em defesa da democracia e diz que a “sociedade vai acabar empurrando as lideranças políticas para uma postura conjunta contra Bolsonaro, independente do que elas pensam”.

“A sociedade vai exigir que elas se posicionem contra Bolsonaro. Já está acontecendo. A sociedade e a população estão mais atentas.”

DEMOCRACIA.

Historiadora e professora da Univap (Universidade do Vale do Paraíba), Maria Aparecida Papali acha que há uma confusão no país sobre o que é ser de direita e de esquerda e principalmente quanto a posturas radicais de extrema direita.

“Apesar desse recente fenômeno no país, de polarização entre esquerda e direita, falta muito para as pessoas compreenderem isso. Não se deve confundir direita e esquerda com os extremos, que são posicionamentos diferentes.”

Segundo ela, a democracia permite que as pessoas tomem posse do conhecimento, mas a brasileira “precisa amadurecer, para que inclua mais pessoas com educação política. Essa deveria ser a nossa briga, não o contrário”.

VIOLÊNCIA.

Sobre o atual momento de movimentos antidemocráticos, Maria Aparecida diz que trata-se de um período bastante específico na história do país, que bem mesmo se deve confundir com os anos anteriores à ditadura militar.

“Em nenhum momento tivemos facções, como temos hoje, que trabalham com a perspectiva do ódio, de grupos fascistas de verdade. É muito singular.”

Segundo ela, a questão que antecedeu o golpe de 1964 era um contexto diferenciado, com a guerra fria e o país em um movimento de politização distinto entre direita e esquerda, assim como hoje. A diferença é a violência.

“Hoje temos um movimento armado, milícias neofascistas impregnadas de ódio, violência, de um fechamento do sistema, antidemocráticas. Está acontecendo com maior proporção, o que é preocupante.”.