Exonerada no dia 5 maio, a ex-diretora da UTI do Hospital HRAN (Regional da Asa Norte), em Brasília, Adriana Carballo havia enviado cinco dias antes um ofício questionando o protocolo de escolha de pacientes críticos que receberiam cuidados de terapia intensiva diante de eventual falta de recursos para todos. O HRAN é referência no tratamento de covid-19 no Distrito Federal.
Adriana Carballo estava no comando da UTI do HRAN desde fevereiro, quando substituiu Carlos Ferreira Portilho. Após a exoneração de Adriana, o médico intensivista Vitor Bittencourt foi nomeado para dirigir a terapia intensiva do hospital.
Atualmente, o DF tem 2.682 casos confirmados da doença e 42 mortes. No ofício direcionado ao gabinete de crise do HRAN e à diretoria do hospital no dia 30 de abril, a médica afirma que a orientação do hospital sobre a escolha de pacientes críticos em função da alta demanda por atendimento "carece de justificativas ético-legais".
No documento, a médica afirma que a exemplo do que aconteceu em outros países chegará o momento no qual os recursos de assistência disponíveis serão insuficientes e defende que o poder público se prepare para essa possibilidade. Adriana critica o fluxograma sugerido pela direção do hospital e diz que o protocolo é "subjetivo".
"Para serem eticamente defensíveis, no entanto, processos de alocação de recursos em esgotamento não devem ocorrer em segredo, sem registro apropriado (protocolo inserido no SEI) e de maneira subjetiva (como no fluxograma sugerido) e inconsistente. Ao contrário, é fundamental que ocorra através de protocolos que sejam claros, transparentes, tecnicamente bem embasados, eticamente jusficados e que estejam alinhados ao arcabouço legal brasileiro", diz o texto.
A médica argumenta ainda que é importante implementar um protocolo claro de triagem para resguardar os profissionais de saúde da responsabilidade de tomar decisões que sejam "emocionalmente exaustivas".
Segundo ela, isso poderia " aumentar os já elevados riscos de problemas de saúde mentalprovocados pela pandemia da Covid-19 e consequentemente comprometer a capacidade para o trabalho acurto e longo prazo" desses profissionais.
Internamente, a retirada de Adriana do cargo é associada às cobranças que a médica fazia em relação a protocolos claros de atendimento e condições adequadas de trabalho. Ela pleiteava junto à direção o fornecimento e a manutenção de equipamentos necessários para o funcionamento da UTI, o que teria desagradado a chefia. A reportagem tentou contato com a médica, mas não conseguiu falar até o momento.
A reportagem questionou a Secretaria de Saúde do DF a respeito da exoneração da médica e dos protocolos para triagem de pacientes críticos na UTI. O órgão respondeu que os cargos comissionados são de " livre provimento" e que é prerrogativa do chefe do Executivo a nomeação e exoneração de quadros. A secretaria não comentou sobre os protocolos.