O cenário doméstico segue impedindo que o dólar tenha um período mais longo de desvalorização contra o real. Após a abertura em queda, às 11h45 a moeda americana subia 0,72%, a R$ 5,911. Na máxima, foi a R$ 5,929, maior valor de cotação intradiária. Os analistas destacam o agravamento dos atritos políticos, com a revelação de que vídeo de uma reunião ministerial mostraria o presidente Jair Bolsonaro pedindo uma troca na Polícia Federal para proteger sua família e a sinalização de que não vai haver juro negativo nos Estados Unidos. Na Bolsa, o Ibovespa (índice de referência da B3) sobe 0,46%, aos 78.227 pontos.
"A incerteza política no Brasil está no radar do mercado desde antes da pandemia. Este clima de apreensão faz com que notícias ainda nem confirmadas ganhem mais repercussão, o que acaba influenciando no comportamento do mercado. Ainda não há divulgação de trechos do vídeo, mas os rumores sobre a reunião têm pressionado o câmbio", indica Fabrizio Velloni, chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora.
Victor Beyruti, economista da Guide Investimentos, também destaca que a cena política doméstica incerta contribui para que o dólar siga fortalecido contra o real:
"O presidente disse que vetará o trecho que flexibiliza o congelamento de salários para algumas categorias dos servidores públicos. Porém, se o Congresso barrar o veto, ou houver divulgação do vídeo da reunião, o dólar tende a ganhar mais força".
Mudanças no cenário externo
Bolsonaro pressiona o então ministro da Justiça Sergio Moro a trocar o comando geral da Polícia Federal e o da superintendência no Rio para evitar que familiares e amigos fossem "prejudicados" por investigações em curso, revela vídeo de uma reunião ministerial realizada no último dia 22 de abril e divulgado nesta terça-feira.
Os investidores também seguem atentos à agenda externa. Na manha desta quarta, o presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) Jerome Powell descartou a adoção de juros negativos na economia americana. Powell destacou, entretanto, que o Fed continuará usando de seu "arsenal" para combater os impactos da pandemia nos EUA. Ele também pediu mais estímulos fiscais.
"É importante lembrar que o Fed tem poderes para emprestar, mas não para gastar", disse Powell, durante conversa virtual com o presidente do Instituto Peterson de Economia Internacional.
A sinalização do presidente do Fed contribui para a pressão sobre o dólar porque, em momento de crise, os investidores buscam proteção. Ou seja, desfazem operações em países emergentes e se refugiam em títulos americanos ou dólar.
Uma vez que os juros negativos estão descartados nos EUA, os investidores preferem a baixa remuneração de uma economia forte do que deixar o dinheiro exposto à volatilidade de emergentes, como é o caso do Brasil.