10 de julho de 2026
Brasil

Reabertura com 92% de UTIs ocupadas na capital paulista é precipitada e arriscada, dizem especialistas

Por Agência O Globo |
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UTI

Com 92% dos leitos de UTI ocupados na capital paulista e uma ainda incipiente estabilização nos novos casos de Covid-19 na cidade, o cenário não é seguro para uma reabertura neste momento, avaliam especialistas. Nesta quinta-feira, o prefeito Bruno Covas apresentou detalhes do projeto para flexibilização da quarentena na cidade em meio à pandemia do novo coronavírus.

O município começará a receber sugestões de protocolos de diferentes setores econômicos a partir da próxima segunda-feira, 1º de junho. A Secretaria Municipal do Emprego e Relações do Trabalho receberá os planos de retomada. E caberá à Vigilância Sanitária a aprovação e liberação, inicialmente, de cinco áreas: comércios, escritórios, imobiliárias, concessionárias de carros e shopping centers.

A capital paulista tem 54.948 casos confirmados de coronavírus, e outros 3.619 óbitos em decorrência da doença. Com base nesses números, na curva de casos ainda longe de queda e na alta ocupação de leitos de UTI, o projeto de flexibilização é visto como precipitado e arriscado por especialistas.

"Olhando a curva epidemiológica da capital paulista e a do Brasil, no geral, não há queda no numero de óbitos nem de casos suficiente para justificar uma reabertura como está acontecendo neste momento na Alemanha, por exemplo, que sofre pressão parecida para retomada, mas muito mais disponibilidade de UTIs livres, por exemplo", diz o virologista Luiz Gustavo Bentim Góes, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

Ele afirma que, embora o uso de máscaras e o distanciamento social estejam estabelecidos na cidade, não são o bastante para uma flexibilização na quaretena, em vigor até o dia 31.

"O isolamento já não foi seguido a critério, ficou abaixo dos 70%. E não observamos uma estabilização muito segura de casos, nem queda. No máximo, o começo de uma estabilização. E, mesmo nessa fase, é um patamar alto. Não quer dizer que cessaram. A pressa em reabrir pode ter um efeito muito ruim no número de casos da doença", afirma o virologista.

Na coletiva desta quinta-feira, Covas afirmou que, até a aprovação dos protocolos sugeridos, sem data prevista, a fiscalização continuará na cidade. Também será feito um monitoramento constante das medidas de reabertura, afirmou, e medidas de retrocesso da flexibilização são consideradas se necessário. Mas especialistas dizem que ainda não há muita clareza sobre os critérios de análise para uma eventual volta atrás, que deveria incluir aumento de testagem e redução da subnotificação, por exemplo.

"Todo país vai testar a reabertura e discutir o que deve ser retomado ou não. Isso faz parte do problema, e é um aprendizado. E é uma situação totalmente nova. O interessante é analisar os dados de outros países e tentar fazer inferências, acompanhar as pessoas, testar, rastrear contatos. O ideal aqui seria esperar mais e verificar se a curva vai mesmo se estabilizar. Quanto vai custar em termos de vidas uma abertura antecipada?", opina Bentim Góes.

Também é vista com descrença a expectativa de que a taxa de transmissão do vírus na cidade - atualmente em 1,1, segundo Covas - baixe ainda mais nos próximos dias, como anunciou o prefeito na coletiva desta quinta. Segundo especialistas, quando a capacidade de um indivíduo infectado contaminar outra pessoa cai a menos de 1 é um sinal de que a epidemia está se esvaindo, e não é essa a realidade da capital paulista.

Falta de assistência

Para o médico infectologista Eder Gatti, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), os critérios para a reabertura ainda estão confusos. Ele reforçou a preocupação com a disponibilidade de leitos.

"Embora a capital tenha maior número de leitos, acaba sendo referência para o entorno. Os casos de coronavírus de municípios hoje em situação vermelha e na Grande São Paulo serão hospitalizados na capital", alerta.

Segundo o infectologista, o isolamento teve impacto importante na evolução da epidemia, que poderia ter sido ainda pior. Mas diz que a adesão acabou prejudicada, por outro lado, pela falta de apoios consistentes para quem tem dificuldade de ficar em casa, e pela divergência de discursos entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores sobre a liberação das atividades econômicas.

"Não vejo com tranquilidade a decisão que foi tomada. Além dos 92% dos leitos ocupados, pode faltar espaço para outras doenças, que continuam acontecendo", afirma. "Em um sistema colapsado, o aumento das mortes se dá de forma muito maior, pela falta de assistência. Sem contar que, em um estado de colapso, será muito difícil voltar atrás".