A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde nas Américas (OMS), afirmou que o Brasil deve continuar relatando os dados sobre a pandemia do novo coronavírus no país. Em coletiva de imprensa por videoconferência, diretores da Opas reforçaram que a divulgação das informações é essencial para que governos tenham uma visão clara do que está acontecendo.
"Os países podem revisar seus dados. Vimos isso quando começou a pandemia, na China, e também em Nova York. Se chegam novas informações, não é ruim revisar. Mas o Brasil tem uma longa história de informar dados, e um amplo sistema de vigilância em saúde", disse Marcos Espinal, diretor do departamento de Doenças Transmissíveis da Opas. "O que recomendamos é que esses dados continuem sendo informados, porque isso nos permite, e permite aos próprios governos, ter uma visão clara do que está acontecendo, e permite ainda aos gestores públicos planejar como priorizar os lugares mais afetados pela pandemia".
Questionados sobre a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que poderia retirar o país da OMS, os diretores da Opas afirmaram que continuarão trabalhando com o Brasil e apoiando no acesso a vacinas e medicamentos.
"O Brasil tem uma longa tradição de cooperação com a OMS e a Opas. Sempre foi um ator importante nas Américas, e fora dela, com tradição de solidariedade. A organização continuará apoiando o Brasil, e facilitando a chegada de vacinas e novos medicamentos", disse Espinal, sem entrar em detalhes sobre a gestão de Bolsonaro durante a crise de saúde.
Na semana passada, a organização já havia pedido que o Brasil aumentasse a testagem da população, em meio às discussões sobre flexibilização da quarentena no país.
Em relação ao estudo da OMS que lançaria dúvidas sobre a transmissão de Covid-19 por pessoas assintomáticas, os diretores da Opas reforçaram a diferença entre as pessoas sem sintomas e pessoas ainda no início da infecção e a importância do uso de máscaras.
"É importante estabelecer a diferença entre pessoas assintomáticas, que não apresentam nenhum sintoma em nenhum momento da doença, e pessoas pré-sintomáticas, que ainda não apresentam febre ou tosse. Os dados científicos até agora mostram que é menos provável haver contágio a partir de uma pessoa totalmente assintomática do que com pessoas pré-sintomáticas. E como se faz isso? Através de rastreamento de contatos", diz Sylvain Alighieri, diretor de incidentes da Opas.
Chegada do inverno e de furacõesA diretora-geral da Opas, Carissa Etienne, alertou que a chegada do inverno e da temporada de furacões pode complicar o combate ao novo coronavírus na regiçao. Ela afirmou que o novo obstáculo se soma ao fato de que a região já representa praticamente metade dos casos de Covid-19 no mundo.
"Desde o dia 8, temos mais de 3,3 milhões de casos notificados na região das Américas, mais do que em qualquer região do mundo. É praticamente metade dos casos de Covid-19. Lamentavelmente, muitas áreas estão notificando aumento exponencial de casos e mortes. São preocupantes os dados de que a disseminação do vírus aumenta repentinamente em lugares onde antes havia número limitado de casos. Estão subindo na América Central, e continuam se propagando muito forte no Brasil, Chile e Peru", afirmou Carissa.
A diretora-geral da Opas também mostrou preocupação com a chegada do frio na região, época em que se exacerbam problemas respiratórios e aumenta o risco de vulnerabilidade ao novo coronavírus. Na América Central, América do Norte e Caribe, a temporada de furacões, afirma também chama a atenção.
"A preparação para o inverno e a temporada de furacões é parte essencial em nosssa luta. Devemos garantir que vamos conter a propagação (do novo coronavírus). Isso significa redobrar esforcos para reduzir a carga dupla do inverno e dos furacões sobre nosso sistema de saúde", afirmou. "Também precisamos fortalecer a estrutura sanitária, com contratação de pessoal e ampliação da reserva de insumos essenciais".