10 de julho de 2026
Brasil

Em dois laboratórios privados, 20% dos testes de anticorpo para Covid-19 deram positivo

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 6 min
Teste de covid-19

Dois serviços privados de diagnóstico e análises clínicas divulgaram ontem dados sobre os resultados de exames de anticorpos para Covid-19 que realizaram, e o percentual de resultados positivos variou ficou em torno de 20%.

Na maior rede privada de exames clínicos a Dasa, que detém 15% do mercado, uma parcela de 23% dos exames sorológicos (nos quais anticorpos revelam se o paciente teve infecção passada pelo vírus) emergiu como positiva desde abril.

A empresa afirma que, até agora, já realizou 500 mil exames para coronavírus no Brasil, metade deles do tipo genético (que detecta a presença do vírus ativo no organismo), metade deles de sorológicos. No primeiro tipo, por o exame ser indicado apenas para casos em que a pessoa apresenta sintomas no momento, há um viés, e a parcela de resultados positivos foi ainda maior, com 36% de casos positivos.

No Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde foi realizado o primeiro teste confirmado do novo coronavírus no país, já foram processados mais de 120 mil exames de detecção de Covid-19.

Na maioria, foram testes do tipo RT-PCR (genéticos): 84.836 deles desde o início da pandemia. Segundo o hospital, a positividade nesses casos foi de 28%.

Já em relação aos testes de sorologia, o Einstein realizou 37.219 testes e separou os resultados por anticorpos do tipo IgM (que emergem cerca de 10 dias após os sintomas) e IgG (que levam mais tempo para emergir e podem perdurar por longo peíodo). Nos exames que mediram a presença de IgG, o resultado positivo foi de 12%. Já os que deram positividade para IgM foram 6%.

Como o Einstein tem base em São Paulo e a rede da Dasa é muito concentrada no Sudeste (metade das 800 unidades estão no Rio e em São Paulo), os dados recentes dizem respeito ao retrato sobretudo desses estados.

O Grupo Fleury, segundo no mercado, afirma ter processado até agora aproximadamente 300 mil testes de diagnóstico de Covid-19, entre exames de sorologia e RT-PCR (de tipo genético). Os números compreendem testes realizados em 250 unidades pelo Brasil, além de 30 hospitais parceiros. O Fleury não divulgou, ainda, qual parcela de exames apresentou resultado positivo.

Segundo o Dasa, o cenário privado de análises clínicas é um termômetro útil para observar a epidemia no Brasil. "Apesar de não serem dados saídos de um estudo controlado, o n [o número total de pacientes testados] é muito grande e relevante", afirma Emerson Gasparetto, vice-presidente da Dasa e CMO (chief medical officer).

"Nas populações em que a gente tem uma predominância de testagem, é provável que o número fique ao redor disso", afirma o médico.

Retrato exagerado

Os dados de Einstein e Dasa, porém, não estão na mesma dimensão do estudo Epicovid19-BR, liderado pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas), que mediu a prevalência acumulada da Covid em 83 cidades brasileiras. No Rio, a prevalência no início de junho foi estimada em 7,5%, e em São Paulo 2,3%, a partir de uma amostragem de 250 testes feitos em cada cidade.

Segundo Aluísio Dornellas, um dos epidemiologistas que coordenam o estudo, os números do sistema privado oferecem um retrato exagerado da epidemia, porque dizem respeito a um recorte específico.

"Quem vai fazer teste nos laboratórios privados são pessoas que estão com sintoma ou que têm algum motivo para levantar suspeita de Covid-19", afirma o pesquisador. "Isso aumenta a probabilidade de que quem procura o diagnóstico tenha contraído mesmo o vírus".

Um dado preocupante destacado por Gasparetto é que a parcela de testes resultando positiva aumentou muito. Em abril, o primeiro mês que que a empresa ofereceu testes sorológicos, cerca de 6% dos resultados foram positivos, e o acumulado evoluiu para os 23% mencionados em junho.

Quando se avalia essa tendência de crescimento, aí sim os dados do Dasa parecem corroborar a tendência de aceleração da epidemia verificada pelo Epicovid19-BR.

Segundo a UFPel, em duas semanas entre o meio de maio e o início de junho, a população de brasileiros com anticorpos contra o novo coronavírus em 83 cidades aumentou de 1,7% para 2,6%, um salto de 53%.

Outra diferença entre os dados de serviço da Dasa e do estudo da UFPel é o tipo de teste de anticorpos usado. Enquanto a universidade fez seu levantamento usando kits portáteis de testes rápidos (para que entrevistadores do Ibope pudessem visitar os voluntários em casa), a Dasa utilizou um exame sorológico que requer equipamento laboratorial não portátil, mas que oferece resultado com um pouco mais de confiabilidade. Nem a Dasa nem o Fleury estão oferecendo testes rápidos do tipo usado na pesquisa.

"A gente não ficou confortável com os resultados de acurácia do teste rápido", diz Gasparetto, da Dasa. A Wondfo, empresa chinesa que fabricou os testes fornecidos ao Ministério da Saúde, relata 86% de sensibilidade do teste, o que implica um risco de 14% de falso negativo para o exame.

Essa imprecisão não chega a representar problema para uso em pesquisa, e é incorporada à interpretação dos estudos, mas para uso clínico a margem de erro é muito alta.

Desafiando o manual

Segundo a divisão médica da Dasa, mesmo empregando um exame mais preciso, a Covid-19 é uma doença difícil de monitorar em cada indivíduo. "Essa doença não acompanha o que está escrito nos livros de medicina", diz Gustavo Campana, diretor médico da Dasa.

"Em cerca de 10% dos nossos pacientes que tiveram positivo, o IgG apareceu antes do IgM, e a gente tem uma proporção de 50% de sincronismo, em que os dois tipos de anticorpos aparecem ao mesmo tempo. Além disso, a gente viu pacientes que se soroconverteram [passaram a produzir anticorpos para Covid-19] depois de 10 dias de doença, e pacientes que tiveram diagnóstico positivo em PCR e depois de 30 a 40 dias ainda não tinham se soroconvertido".

O Einstein também divulgou resultados de 259 testes de sorologia para o IgA, anticorpo presente em secreções respiratórias, saliva, sangue, leite materno, entre outros, e que mede a imunidade das mucosas da boca e sistema digestivo. Nesse grupo menor, informa o hospital, a positividade de IgA foi de 26%.

Segundo Campana, da Dasa, para interpretar os dados é preciso levar em conta também que a capacidade de exames dos laboratórios aumentou com o passar do tempo. No início da pandemia, em fevereiro, a escassez de insumos para realizar exames, como as substância reagentes do PCR, afetava mais o cenário de diagnóstico no Brasil.

Para lidar com a falta de insumos para exames genéticos tipo RT-PCR, considerado o padrão, a Dasa começou a aplicar outras duas variedades de exames dessa categoria: o Sanger, que usa uma técnica mais tradicional de biologia molecular, com materiais diferentes, e o Crispr, que emprega uma enzima normalmente usada por cientistas para editar DNA em laboratório, mais sensível que o RT-PCR tradicional.