09 de julho de 2026
Ideias

João Roberto de Souza - Os desafios da educação no contexto da pandemia

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João Roberto de Souza*

Em meados de março, quando as autoridades sanitárias do Brasil tomaram as primeiras medidas de afastamento social, a maioria dos gestores públicos de educação não projetava um período tão longo de abstinência de aulas presenciais nas escolas. Passados três meses da primeira morte de Covid19 no Brasil, a única certeza que temos é que não sabemos ao certo quando as aulas presenciais poderão ocorrer com segurança.

Com o espraiamento do vírus para além das capitais e o avanço da pandemia em pólos regionais densamente povoados, parece tão improvável quanto insano arriscar uma volta às aulas presenciais com segurança para o início do segundo semestre letivo. No Estado de São Paulo, com vários centros metropolitanos espalhados pelo interior, há índices crescentes de contaminação, o que indica que a liberação para as aulas presenciais pode ocorrer muito mais tarde do que hoje imaginamos.

O fato é que diversos fatores corroboram para ampliação desse cenário de incertezas: dados e informações não são confiáveis, baixa testagem, subnotificação de casos e as crises políticas decorrentes da postura negacionista do Governo Federal que dificultou ações coordenadas com os outros entes federados. Não obstante todos esses elementos, há o risco recente do agravamento da crise em virtude da flexibilização das medidas de afastamento social em locais onde o número de infectados e mortos ainda cresce em escala muito elevada.

No início da pandemia, criou-se a expectativa de um pico da doença que indicasse o momento de inflexão da curva e a conseqüente volta à normalidade. Hoje, o que temos é uma pandemia composta por diversas epidemias locais, com padrões diferentes entre si. Segundo Mario Sommer Bittencourt, médico e especialista em epidemiologia da USP, não faz mais sentido falarmos de um único pico da doença em um país de dimensões continentais como o Brasil.

A considerar os prognósticos dos epidemiologistas e da Organização Mundial de Saúde teremos, pelo menos, dezoito longos meses de percurso pela frente até que possamos, através de vacinas ou medicamentos mais eficazes, diminuir a nossa vulnerabilidade diante do vírus e respirar tranquilamente. Nesse caminho, não é pouco provável que tenhamos que enfrentar novos períodos de quarentena, alternando ciclos de abertura e fechamento de escolas até que o este vírus se dê por vencido.

Na Espanha, quando já havia passado o pico da pandemia e as autoridades políticas ensaiavam os primeiros movimentos para o retorno às aulas, surgiram vozes dissonantes de pediatras e outras especialidades da medicina que alarmaram os riscos de contágio e uma segunda onda do Corona Vírus. Na França, logo após autorizar a volta às aulas, o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, decidiu fechar 70 escolas do país, devido ao surgimento de novos casos confirmados e suspeitos de Covid-19. Na Alemanha, as autoridades definiram que a volta às aulas será gradativa, primeiro com os alunos mais velhos, das escolas secundárias, deixando as crianças mais novas para uma última fase do processo de abertura. Na Itália, a ministra da Educação Lucia Azzolina, ao apresentar o plano para retomar as atividades escolares em setembro aventou a possibilidade de uma "educação mista", em que as aulas sejam parcialmente presencial e parcialmente online, para dividir as salas e não ter excesso de estudantes no mesmo ambiente.

Diante de tantos fatores imprevisíveis nem faz muito sentido debater se é o ano ou o semestre que está a perder-se, mas o que de fato podemos fazer para garantir o máximo de aprendizado possível, respeitando as necessidades do afastamento social, para somente depois, quando as condições sanitárias permitirem, planejar cuidadosamente o retorno às aulas presenciais.

Nesse aspecto, sinto-me particularmente incomodado com o fato de que muitos pesquisadores, consultores e especialistas que praticam o advocacy na área de educação tenham tomado como foco central do debate educacional os impactos da pandemia nos processos de aprendizagem e uma agenda focada em desafios a serem enfrentados após o processo de reabertura das escolas.

Antes de projetarmos os impactos emocionais, físicos e cognitivos desta pandemia que não tem data para terminar, precisamos nos ater aos desafios concretos que essa realidade nos impõe. Uma questão central, por exemplo, é ter claro que a prática da educação à distância, em tempos de Covid19, não é uma opção ou escolha dos gestores públicos, mas antes de tudo, uma necessidade. Por isso, a despeito das resistências ou entraves que possam surgir no meio do caminho, precisamos assimilar e incorporar os recursos tecnológicos como aliados prioritários e imprescindíveis para esse momento.

Em tempos de pandemia, dirigentes e gestores precisam tomar para si a responsabilidade do debate sobre a necessidade do uso de tecnologias na educação, priorizando as ferramentas e soluções mais acessíveis às populações mais pobres e vulneráveis combinadas com medidas concretas que auxiliem o professores neste que é, certamente, o maior desafio de suas carreiras.

A despeito das dificuldades enfrentadas e a clara omissão do Ministério da Educação em conduzir ações estratégicas para esse momento, temos visto alguns bons exemplos de dirigentes de redes locais e sistemas públicos de educação que têm se empenhado na busca de soluções educacionais, protocolos de atendimento e ações formativas que, certamente, atenuarão os impactos da pandemia em seus territórios.

O uso de softwares e aplicativos gratuitos responsivos ao celular, a compra de pacotes de conectividade à internet para as famílias mais vulneráveis, o envio de livros do PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) às residências dos alunos, treinamentos seguros de professores a fim de facilitar e padronizar o desenvolvimento de roteiros e atividades pedagógicas para os alunos são, entre tantos outros, exemplos práticos que precisam ser seguidos pela maioria das redes públicas do país. Precisamos ecoar as essas ações educativas que, no âmbito das comunidades, têm conseguido envolver pais, alunos e professores nesta verdadeira batalha pela aprendizagem.

Uma recente pesquisa realizada pela instituição Eu Ensino em parceria com o Cenpec Educação apontou que a falta de conhecimento para adaptar as aulas ao formato digital é uma das maiores dificuldades relatadas pelos educadores. Quando perguntados sobre temas em que gostariam de se aprofundar, ferramentas on-line, disciplinas específicas e habilidades da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) lideram as respostas. Além disso, 41,1% afirmaram estar precisando de novas ideias e material didático.

A considerar todos esses dados, temos uma agenda na educação a ser cumprida nesta pandemia, que não se encerrará antes da descoberta de uma vacina. Por isso, não podemos esperar a volta das aulas presenciais para dar conta de todas essas demandas. Uma frase célebre de Steve Jobs diz “decidir o que não fazer é tão importante quanto decidir o que fazer”. E se há algo que não devemos fazer em meio a esta crise é colocar a carroça à frente dos bois, priorizando a análise dos problemas do contexto pós pandêmico, em detrimento de tomar já as medidas que possam mitigar seus efeitos futuros.

Para refletir sobre os benefícios advindos das crises, vale lembrar o cientista Charles Darwin que, entre tantas descobertas, observou que “no contexto das transformações ocorridas no meio ambiente, não são as espécies mais fortes que sobrevivem, tampouco as mais inteligentes, mas as que melhores se adaptam aos processos de mudanças”. A considerar essa máxima, a aceleração e a assimilação de processos adaptativos correlatos ao uso das tecnologias na educação durante a pandemia, podem se constituir numa poderosa ferramenta para os professores que, após volta às aulas presenciais, poderão ter melhores condições de contribuir para o aprendizado dos alunos e a superação do quadro histórico das desigualdades educacionais no Brasil.

*Consultor e Especialista em Educação do INEC (Instituto Educação Cultura e Gestão)