Na teologia católica, 'Anjo Caído' é aquele que, cego pelo poder, se entrega ao pecado e acaba expulso do Paraíso, caindo, assim, dos céus.
Afeito a referências bíblicas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que vive um inferno astral no Palácio do Planalto, em meio a uma crise sanitária, econômica e institucional, em que reiteradamente faz ameaças contra a democracia, também teve um problema com um anjo caído que ameaça agravar a governabilidade de sua gestão.
O anjo em questão trata-se do advogado Frederick Wassef, que já defendeu o próprio Bolsonaro e seus filhos, e que está no centro do caso da prisão de Fabrício Queiroz, um fantasma do passado e que volta para assombrar o capitão em um turbulento momento de seu governo.
Criada em conjunto pelo Ministério Público do Rio de Janeiro e pela Polícia Civil de São Paulo, a Operação Anjo, responsável pela prisão de Queiroz e que ganhou esse nome justamente por causa do apelido de Wassef dentro do grupo bolsonarista, coloca em xeque o discurso contra a corrupção usado pela família do presidente. Mais: diminui ainda mais a capacidade de governabilidade de uma gestão com dificuldade de diálogo, ilhada. E que, apesar do discurso de "nova política", não demorou a recorrer ao chamado Centrão para conseguir seus interesses.
A prisão de Queiroz, ex-assessor e amigo pessoal do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), o filho '01' do presidente, deve ajudar a elucidar uma série de questões que ligam o clã Bolsonaro a atos de corrupção. Queiroz, amigo do presidente desde que serviram o Exército juntos há 30 anos, teve sua prisão determinada em uma decisão que aponta existência de provas de peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução da Justiça, que afirma que o ex-assessor estava tentando destruir provas do esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio, na época em que Flávio era deputado estadual.
ASCENSÃO.
Deputado por sete mandatos consecutivos e por oito partidos diferentes, Bolsonaro elegeu-se presidente com uma campanha e um forte discurso contra a corrupção, prometendo tirar o país 'da lama' e adquirindo confiança daqueles já descrentes com a situação do Brasil após as polêmicas dos governos do PT.
Não à toa, criou uma onda ultra-conservadora que fez com que diversos políticos pegassem carona, ajudando a eleger, também, governadores, senadores e deputados por todo país -- incluindo os próprios filhos. Mesmo que não tivessem seu apoio declarado, o simples fato de repetir o discurso bolsonarista contra a corrupção, o comunismo, o vermelho e o partido rival já era o suficiente.
Desde o início do governo, em 2019, já há uma série de acusações contra o presidente e, também, mais de 30 pedidos de impeachment. Por mais que seus fieis escudeiros tentem negar a todo custo, se a investigação do Ministério Público no caso Queiroz chegar a Flavio, se torna um duro golpe no discurso de Bolsonaro -- o maior responsável por levá-lo ao poder.
QUEDA.
O 'anjo' em questão, Wassef deu entrevistas nos últimos meses afirmando não conhecer o paradeiro de Queiroz -- que foi preso, justamente, na casa do advogado, na cidade de Atibaia. Wassef é figura frequente em Brasília, e próximo do presidente desde antes da eleição, em 2018.
Frequentador assíduo do Palácio do Planalto, Wassef é considerado quase como um "ministro sem pasta" dentro do governo Bolsonaro. Amigo próximo do secretário do Ministério das Comunicações, Fábio Wajngarten, o advogado criminalista tem pelo menos nove procurações para advogar em nome de clã bolsonarista: três do próprio presidente, três de Flávio e outras três do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos). Mensagens obtidas pelo Ministério Público Federal mostram que o paradeiro de Queiroz era monitorado por Wassef.
Após a prisão do ex-assessor, o 'anjo' será investigado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que irá apurar "potencial infração ética" no caso. E pode acabar sendo peça-chave do mais duro golpe do atual governo até então -- e que agrava ainda mais o inferno astral de Bolsonaro.