São José dos Campos tem menos de 11 anos para se preparar para o envelhecimento de seus moradores. Segundo dados da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), em 2030, a população de idosos na cidade deve passar de 98.860 para 150.219, enquanto a de jovens entre 15 e 34 anos deve cair de 218.236 para 199.411. Mas o município não está sozinho nesse desafio: um quinto da população mundial terá idade superior a 60 anos até 2050, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
O Brasil, desde 2016, guarda a quinta maior população idosa do mundo. E, 2030, ao que tudo indica, será o ano da virada, quando o número de idosos ultrapassará o de crianças com idade entre zero e 14 anos. Mas, se de um lado o governo precisa, por meio de sua Previdência Social, projetar os próximos anos e planejar a sua estrutura financeira para atender a nova demanda, de outro, será preciso que a administração municipal crie e conduza serviços sociais para que idosos se mantenham ativos e inseridos na sociedade após a aposentadoria Mas afinal, quais as demandas do idoso?
Segundo o geriatra Aurélio Tucci, da Unimed de São José, o idoso deve ser visto como um cidadão com suas peculiaridades decorrente dos anos vividos, mas que quer e tem o direito de viver ativamente e com qualidade de vida. “O envelhecimento traz mudanças naturais, como a prevalência de doenças crônicas, lentificação da marcha, redução da acuidade visual e auditiva. E tudo isso precisa ser considerado pelos gestores públicos”, afirmou.
“Há de se considerar também que o conceito de saúde para o idoso não é simplesmente a ausência de doenças, mas, sim, engloba a sua capacidade funcional, de viver independente e se manter ativo na sociedade”. Em 2007, a OMS lançou o programa chamado “Cidades Amigas do Idoso”, com série de recomendações que visam atender às necessidades daqueles que têm mais de 60 anos.
Nele, a cidade valoriza o envelhecimento ativo com a “otimização de oportunidades para saúde, participação e segurança para melhorar a qualidade de vida das pessoas à medida em que envelhecem”. Ou seja, considera as diferentes necessidades dos idosos e suas capacidades.
“Nesse sentido foram elaboradas orientações quanto à adaptação dos espaços e prédios públicos (áreas verdes, calçadas adaptadas, cruzamentos seguros nas ruas, acessibilidade e banheiros públicos adequados); transporte (veículos adaptados, profissionais compreensíveis quantos às necessidades da pessoa idosa, custo adequado); moradia (adaptação para prevenção de quedas, por exemplo), acesso aos serviços de saúde (profissionais habilitados para atendimento multidisciplinar do idoso, acesso que leva em conta as diferentes capacidades funcionais de cada idoso, programas de promoção da saúde e prevenção de doenças, hospitais com serviços que considerem as características do idoso, programa de reabilitação do idoso frágil e etc); participação social (centros de convivência); além de participação na sociedade, por meio de aspectos relacionados à segurança pública, ao mercado de trabalho, respeito e inclusão social”, informou o médico.
Rugas
Segundo a analista cultural e semioticista Maria Cara, o aumento da população idosa ocorre em todo o âmbito nacional. Mas, em cidades como São José, este é expressivo. “Tenho notado um número considerável de aposentados que vem mudando-se para cá. Pessoas na faixa dos 50 anos de idade decidem sair da correria da capital paulista e viver essa fase pós-trabalho aqui no município”, contou.
“A migração se dá porque a cidade é cômoda e aprazível. É um lugar bem organizado, próximo de grandes cidades, com bons condomínios e bairros, e geograficamente plana - fato importante para idosos. Outro aspecto relevante é que São José está passando por um redesenho econômico e social”, continuou Mariane.
Por outro lado, segundo a especialista, alguns pontos devem ser observados. “Quanto mais idosa a população, mais serviços são solicitados. Vejo a prefeitura de São Paulo, por exemplo, realizar ações que encorajam o idoso a andar de transporte público, frequentar grupos de sociabilidade. Enfim, não ficar fechado dentro de casa. E essa é a pergunta que temos de fazer. São José está preparada para esses serviços de lazer, entretenimento, cultura e educação voltados para o idoso?”, questionou.
De acordo com a Secretaria de Apoio Social ao Cidadão, o envelhecimento é, sim, um desafio, mas o município está se preparando para isso oferecendo novos serviços e ampliando os existentes. Hoje a cidade conta com Serviço de Proteção Básica em Domicílio, com acesso por meio do Cras (Centro de Referência de Assistência Social), e o Serviço de Proteção Especial de Média Complexidade - Centro Dia, com acesso via Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), para idosos em risco ou com seus direitos violados (negligência, abandono, violência psicológica, financeira e sexual, entre outros).
“São José possui quatro Casas dos Idosos, um centro de referência que oferece atividades gratuitas nas áreas de assistência social, educação, esporte, recreação, lazer e cultura. Para participar é preciso ter mais de 60 anos e ser morador de São José”, informou nota da secretaria. Entre as demais ações realizadas estão a “Gincana da Melhor Maturidade, com a participação de frequentadores das unidades da Casa do Idoso, que realizam provas culturais, esportivas, artísticas e de nutrição, sendo que a cada mês é abordado um tema diferente envolvendo toda a cidade”. Há ainda os programas Intersecretarias e Viver a Melhor Idade sem Traumas, que orienta idosos sobre os cuidados para evitar acidentes e viver melhor.
Vigor
O aumento da expectativa de vida das pessoas norteiam as ações da Secretaria de Esporte e Qualidade de Vida. Atualmente, 177 academias da Terceira Idade (77 delas com atendimento) se espalham pelas regiões do município. O programa Cidade em Movimento oferta a prática de atividades físicas com a orientação de profissionais de educação física. Ele “visa fomentar a adoção de um estilo de vida fisicamente ativo, conscientizando da importância de hábitos saudáveis para a saúde pública no avançar da idade, estimulando o convívio social, bem-estar e a qualidade de vida”, informa nota.
No projeto Caminhar, também desenvolvido pela secretaria, após o agente de saúde reunir o grupo de caminhada na UBS (Unidade Básica de Saúde) e acompanhar até a Academia ao Ar Livre da Terceira idade, o profissional de educação física fica responsável por executar as atividades. E há ainda aulas regulares para a terceira idade, com educadores físicos e instrutores de luta, com atenção especial às especificidades fisiológicas e neuromotoras do público atendido.
O projeto “promove a prática de diversas modalidades esportivas terrestres (alongamento, ginástica, lutas, pilates, etc) e aquáticas (hidroginástica, natação) em diferentes Unidades Esportivas de todas as regiões do município, estimulando a adoção de um estilo de vida fisicamente ativo e a melhora da qualidade de vida da população”, segue. Passatempo. Se no esporte, são vários os programas criados, na área cultural, se depender de seus gestores, idosos estão com a agenda completa.
“Aqui no Sesi, trabalhamos atividades que estão estigmatizadas como desinteressantes, mas que, a partir do conhecimento, se tornam prazerosas. Isso acontece com as apresentações de dança, música erudita, peças teatrais e com as mostras de cinema. E isso não tem idade. A arte em si atravessa o tempo. O importante é o que ela diz a cada um e qual o efeito que ela causa”, complementou afirmou Juliana Gurgel, mediadora cultural do teatro da unidade de São José. A FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo) desenvolve atividades para todos os públicos.
“Nós temos, claro, casas de cultura com vocações específicas, algumas recebem mais idosos, outras, mais crianças. Mas o que é mais importante é a inclusão. É fazer com que esse público se integre aos demais. Então esse é nosso foco. Um exemplo disso é o curso de História da Arte, cujos alunos têm, em sua maioria, mais de 50 anos de idade”, disse Washington Freitas, diretor cultural da instituição. Sinônimo de caminhadas e passeios, o parque Vicentina Aranha oferece mais de 50 atividades mensais gratuitas promovidas pela Afac (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura).
“É perceptível a ocupação deste lugar não apenas como polo cultural, mas pelo bem estar e qualidade de vida que proporciona”, disse Angela Tornelli, diretora executiva da instituição. No setor privado, produtores culturais já de alguns anos vêm proporcionando eventos específicos para a chamada Terceira Idade. “Se trouxemos Alok e festivais de cerveja artesanal para a garotada, realizamos também shows para pessoas com mais idade, como Padre Fábio de Melo e Ney Matogrosso. Foram sucesso absoluto”, contou o empresário e proprietário do Espaço Sunset, Vinicius Veneziani.
Responsável por um dos lugares mais badalados de São José na atualidade, Bruno Candido dos Santos, da Casa de Jorge, concorda com o empresário e garante que acertou na aposta. “Nós temos um dia que é voltado para a ‘velha guarda’, como chamamos o público da terceira idade. É um estilo de música específico, voltado para pessoas maduras. E enche, viu! É um dos principais dias da casa”, revelou.