Ao menos 15 mil histórias se cruzam todos os dias nos corredores do Terminal Rodoviário Intermunicipal Frederico Ozanam ou “rodoviária nova”, como o espaço é conhecido pelos joseenses. São pessoas que levam na bagagem muito mais do que roupas. No entanto, na caminhada silenciosa entre o embarque e o desembarque, sonhos, experiências e projetos pessoais permanecem em segredo. Até que alguém pergunte: quem é você? O que você está fazendo aqui?
Essas foram as perguntas que OVALE fez àqueles que circulavam pela rodoviária durante duas manhãs em que a reportagem esteve no local. Entre idas e vindas, conhecemos a professora aposentada Alice Tatai, natural de Caçapava, moradora de São José dos Campos há 25 anos e que afirma ser apaixonada pela cidade. “Quando me mudei para cá, achei a cidade muito boa. Aqui tem muita opção de trabalho”, contou ela.
“Tem Chegadas e partidas: histórias cruzadas também muita atividade cultural e esportiva. Você não ‘vence’ fazer tudo o que é oferecido. Faço hidroginástica, natação, tênis, caminhada, curso de inglês, espanhol, francês… Até japonês aprendi a falar um pouco”, conta ela, que estava indo para São Paulo fazer um exame médico. A aposentada boa de papo os contou que adora aprender coisas novas, se divertir com amigos e viajar.
“Já conheci a França, a Inglaterra, os Estados Unidos e a Tailândia. Amo os países asiáticos”, disse. Da carreira na área da educação, lembra que a maior dificuldade que enfrentou foi lidar com os pais dos alunos, que muitas vezes não aceitavam que os filhos estivessem ido mal na escola.
“Alguns acham que nós perseguimos os seus fi lhos e não aceitam que fiquem para recuperação, mesmo sendo necessário. Nós professores só queremos o bem para o aluno. Todo professor quer ajudar”, dividiu Alice. Obrigada pela conversa, professora, boa viagem!
A segunda pessoa que conhecemos na nossa jornada foi a também professora Lilian Cristina Pires Silva, que veio participar de um congresso de educação em São José dos Campos. Mineira, com residência em Salvador, ela aproveitou a estadia na cidade para conhecê-la melhor.
“Fui aos museus Municipal, de Artes Sacras, do folclore e no Parque da Cidade. No Museu do Folclore, por exemplo, vi muitas peças interessantes e, no dia estava tendo o projeto ‘Museu Vivo’, com música e culinária. Achei bacana”, contou.
A conversa foi rápida, o ônibus logo chegou. Lilian encararia 24 horas de viagem. Antes de partir, a professora comentou: achou os joseenses hospitaleiros. “Com certeza voltarei em outra ocasião”. Opa! Volte sempre!
PERCEPÇÕES
O estudante Lucas Azevedo da Conceição, carioca da gema, veio para São José em 2014 fazer curso pré-vestibular. Seu sonho: ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Permaneceu na cidade e cursa engenharia civil na desejada instituição. O que fazia na rodoviária? Estava indo para Guarulhos, onde pegaria um vôo para o Chile. Para ele, se comparado ao Rio de Janeiro, o custo de vida de São José é mais barato.
“Gosto muito da calmaria daqui. Sem contar que é tudo muito perto. É fácil ir para São Paulo e para o Rio, por exemplo”, afirmou. Lucas contou ainda sua experiência com uma iguaria valeparaibana: o bolinho caipira. “Todo o mundo fala bastante do bolinho, mas quando experimentei não achei nada demais. É só um croquete de carne com nome diferente!”, brincou. Que isso, menino, não fale assim! Bom passeio!
HISTÓRIAS
No prédio, inaugurado em 1976, são atualmente realizados 3.263 embarques e 3.213 desembarques por semana. Os principais destinos são São Paulo, Rio de Janeiro, as cidades do Litoral Norte, municípios do sul de Minas Gerais e Estados das regiões Norte e Nordeste. Segundo, Daniel Esteves, coordenador operacional da empresa Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário e Turístico Ltda.), a Rodoviária Nova guarda muitos episódios inusitados, atrapalhados e, alguns, muito tristes.
“Nesses três anos gerenciando o terminal, presenciei muitas situações. Mas uma experiência que me marcou: foi quando um homem sofreu infarto fulminante. Prestamos os primeiros socorros, acionamos os bombeiros e tentamos reanimá-lo, mas infelizmente não adiantou e a pessoa morreu”, lamentou.
Outro caso triste vivenciado pelo coordenador foi quando encontraram um feto em um dos banheiros. Mas ele ressalta que o lugar reserva mais histórias felizes do que tristes, uma vez que a rodoviária é ponto de encontros de namorados e reencontro de familiares e amigos, e são inúmeros os momentos divertidos.
“Aqui acontece até pedidos de casamento!”, diverte-se. “E também conseguimos identificar algumas pessoas desaparecidas, uma alegria para a família. Sem contar os objetos hilários que são esquecidos de vez enquanto, como muletas, animal de estimação e até cadeira de rodas”, ri o gestor das lembranças.
ÚLTIMA PARADA
Se muitos vêm e vão, há aqueles que resolvem permanecer. É o caso de Claudinha, senhora que mora no local há mais de 20 anos. “Ela é uma pessoa muito amorosa e prestativa. Recolhe o lixo que vê no chão, junta as bandejas na praça de alimentação e entrega nos estabelecimentos… Quando vê alguém carregando malas pesadas ela se oferece para ajudar”, contou a representante de vendas do Terminal Rodoviário, Claudia Lamoia Neto Silva.
Claudia conta que sua xará é seu xodó. “Todo o mundo aqui gosta da Claudinha e sempre estamos cuidando dela de alguma forma”, contou. “Ela gosta muito de macarrão. Então, quando posso, eu a levo para comer”, completou a funcionaria. A representante de vendas conta que a senhora já passou por momentos difíceis.
“Ela engravidou duas vezes. Nessas ocasiões, Claudinha foi encaminhada ao hospital, passava um tempo por lá e depois voltava para o terminal. Como ela tem problemas de memória, não sabemos o que aconteceu com os bebês. Provavelmente foi dado para adoção”, emociona-se. De acordo com Daniel Esteves, já foram realizadas inúmeras tentativas de encontrar a família da Claudinha, mas não houve sucesso.