08 de julho de 2026
Internacional

Presidente do Afeganistão foge, e Talibã toma o poder no país

Por Agência O Globo - |
| Tempo de leitura: 5 min
Palácio foi tomado pelo Talibã

O governo do Afeganistão entrou em colapso neste domingo com a fuga do presidente, Ashraf Ghani, e a entrada do Talibã na capital, Cabul — marcando, na prática, a volta do grupo fundamentalista ao poder, 20 anos depois de sua expulsão pela invasão americana de 2001.

Comandantes do Talibã anunciaram que tomaram o controle do palácio presidencial em Cabul, e depois a emissora al-Jazeera, do Qatar, informou que integrantes do grupo deram uma entrevista no local, dizendo que estavam garantindo a segurança na cidade para a volta de seus líderes que estão no exílio e fora da capital. No fim da tarde, o grupo divulgou um comunicado informando que estava assumindo o controle dos postos policiais que foram abandonados pelas forças do governo pró-Ocidente.

"O Emirado Islâmico ordenou que suas forças entrem nas áreas de Cabul abandonadas pelo inimigo por causa do risco de roubos e furtos", disse o comunicado assinado por um porta-voz do grupo, Zabiullah Mujahid, usando o nome pelo qual a milícia se identifica. "Os talibãs receberam a ordem de não atacar civis nem entrar em suas casas", continuou o comunicado. "Nossas forças estão entrando em Cabul com cautela."

Mais cedo, Abdullah Abdullah, o chefe do Conselho de Reconciliação Nacional Afegão, confirmou que o presidente Ghani havia deixado o país.

— O ex-presidente do Afeganistão deixou o Afeganistão, deixando o país nessa situação difícil — afirmou. — Deus deveria fazê-lo pagar.

Depois da confirmação da sua fuga, Ghani divulgou um comunicado dizendo que deixou o Afeganistão para "evitar um banho de sangue". Segundo a al-Jazeera, ele teria ido para Tashkent, no Uzbequistão, com sua mulher, seu chefe de Gabinete e seu conselheiro de Segurança Nacional.

Ao mesmo tempo, o ex-presidente afegão Hamid Karzai — que assumiu o poder logo após a invasão americana e ficou até 2014 — anunciou no Twitter que estava formando um conselho de coordenação com Abdullah e Gulbuddin Kekmatyar, líder do partido Hesb-i-Islami, para organizar uma transferência pacífica de poder. Ele pediu que tanto as forças do governo em colapso quanto as do Talibã atuem com comedimento para evitar combates na capital.

O avanço do Talibã até Cabul, no entanto, praticamente não enfrentou resistências. A fuga de Ghani aconteceu depois que o Talibã cercou a capital e intimou o governo a uma "transferência pacífica do poder". A chegada a Cabul aconteceu após uma ofensiva-relâmpago de duas semanas em que o grupo assumiu o controle de todas as principais cidades do Afeganistão, às vésperas da conclusão da retirada das forças dos EUA, prevista para 31 de agosto.

Em comunicado divulgado previamente, Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Talibã, afirmou que a milícia queria uma "transferência pacífica ordeira de poder”. O grupo deixou claro que não haverá um governo de transição, e que pretende assumir o poder sozinho, duas décadas depois de ser derrubado pelos EUA e seus aliados da Otan.

Embora as forças do Talibã tenham se concentrado inicialmente nos arredores da capital, durante o dia mais e mais combatentes do grupo circulavam pela cidade, em motos, carros de polícia e até jipes Humvee americanos tomados das forças de segurança.

— Garantimos às pessoas, particularmente na cidade de Cabul, que suas propriedades e suas vidas estão seguras — disse Suhail Shaheen, outro porta-voz do Talibã, em entrevista à BBC, afirmando ainda que os direitos das mulheres serão respeitados, assim como os da imprensa e dos diplomatas.

No período em que ficou no poder no Afeganistão, entre 1996 e 2001, o Talibã proibiu as mulheres de estudar e de trabalhar fora de casa, realizando também frequentes execuções públicas de homens acusados de violar a versão fundamentalista do Islã pregada pelo grupo.

Enquanto o Talibã avançava, militares dos Estados Unidos começaram a retirar funcionários civis e diplomatas de Cabul. Uma pequena equipe de diplomatas que planejava permanecer na embaixada americana na cidade foi transferida para uma sala no aeroporto internacional, onde ficará por um período de tempo não especificado.

Ofensiva relâmpago

Depois de dias em que um centro urbano após o outro caiu nas mãos do Talibã, as últimas grandes cidades afegãs que ainda eram controladas pelo governo foram tomadas em rápida sucessão neste fim de semana.

Os insurgentes tomaram Mazar-i-Sharif, no Norte, na noite de sábado, apenas uma hora depois de romperem as linhas de frente nos limites da cidade. Logo depois, as forças de segurança do governo e integrantes de milícias locais — incluindo as lideradas pelos chamados "senhores da guerra" Abdul Rashid Dostum e Atta Muhammad Noor — fugiram, efetivamente entregando o controle da cidade aos insurgentes.

Na manhã deste domingo, o Talibã tomou a cidade de Jalalabad, no Leste do país. Ao ocupar essa capital provincial e áreas vizinhas, os combatentes do grupo assumiram o controle da passagem de fronteira de Torkham, uma importante rota de comércio e trânsito entre o Afeganistão e o Paquistão.

Região: À medida que Estados Unidos deixam Afeganistão, outras potências atuam para ocupar vácuo diplomático e militar

A ofensiva do Talibã, que começou em maio quando os Estados Unidos começaram a retirar suas últimas tropas de combate, ganhou velocidade na semana passada. Cidade após cidade, os combatentes do grupo retiraram as bandeiras do governo afegão e hastearam suas próprias bandeiras brancas.

Apesar de duas décadas de guerra com as forças lideradas pelos americanos e seus aliados da Otan, o Talibã sobreviveu e prosperou. Mesmo com as memórias dolorosas que muitos afegãos têm dos anos sob o domínio do Talibã, o grupo assumiu o controle de grande parte do país nos últimos dias com uma resistência mínima.

Seu rápido sucesso expôs a debilidade de um Exército afegão que os Estados Unidos gastaram mais de US$ 83 bilhões para armar e treinar nas últimas duas décadas. À medida que a campanha dos talibãs foi acelerada, soldados e policiais se renderam em números cada vez maiores, já que a causa pela qual arriscavam suas vidas parecia perdida.

A velocidade do avanço do Talibã desorganizou o planejamento de retirada das forças ocidentais. Embora muitos analistas acreditassem que os militares afegãos poderiam ser derrotados após a saída dos efetivos estrangeiros, eles imaginavam que isso só aconteceria depois de meses ou anos.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou no sábado que enviará 5 mil soldados adicionais ao Afeganistão para ajudar a retirar os cidadãos americanos, dos quais 1 mil já chegaram ao país. No entanto, ele deixou claro que não mudará sua decisão de retirar todas as forças de combate da nação da Ásia Central.

— Fui o quarto presidente a comandar uma presença de tropas americanas no Afeganistão — dois republicanos e dois democratas — disse Biden na tarde de sábado. — Eu não iria, e não irei, passar esta guerra para um quinto.