10 de julho de 2026
Disputa

Biden reitera saída do Afeganistão em primeiro discurso após vitória do Talibã

Por Agência O Globo - |
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Posse Joe Biden - EUA

Em seu primeiro discurso desde a tomada de Cabul pelo Talibã no domingo, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, reiterou que a saída das forças dos Estados Unidos do Afeganistão vai continuar, e afirmou que o seu país "jamais teve o objetivo de construir um país" no Afeganistão. 

— Eu defendo firmemente minha decisão — disse Biden em um discurso na Casa Branca. — Depois de 20 anos, aprendi da maneira mais difícil que nunca haveria um bom momento para a retirada.

Em seu discurso, Biden reconheceu que o governo americano não esperava a velocidade com que o Talibã tomou Cabul. Em uma aparente contradição, ele afirmou que o governo americano "se preparou para cada contingência, mas que as coisas se desenrolaram mais rápido do que o esperado".

Biden disse que a queda rápida do Afeganistão mostra que "mais um ano, mais cinco anos ou mais 20 anos" de envolvimento militar dos EUA não teriam mudado esta situação. O presidente disse que não pode oferecer às forças afegãs "a vontade de lutar", e disse que "não irá repetir os erros que cometemos no passado".

— A verdade é, isso se desenrolou mais rápido que o antecipado. E aí, o que os líderes afegãos fizeram? Desistiram e abandonaram o país — disse Biden. — Aqui está algo em que acredito profundamente: é errado ordenar que as tropas americanas avancem, quando as próprias forças armadas do Afeganistão não o fizeram.

O presidente procurou defender que a retirada tem por objetivo priorizar os interesses americanos, inclusive vidas e recursos financeiros. No entanto, ele não entrou em detalhes sobre as críticas ao modo como os Estados Unidos efetuaram sua saída militar, nem tampouco se deteve com minúcias sobre as vidas de pessoas — muitas delas, antigas colaboradoras americanas — que serão prejudicadas pela estratégia americana.

Sobre a retirada de funcionários americanos do Afeganistão, Biden afirmou que os EUA darão uma resposta “rápida e enérgica", "com força devastadora, se necessário", se o Talibã atacar cidadãos americanos ou tentar interromper os esforços de evacuação em Cabul.

Biden afirmou que o "único interesse nacional vital [americano] no Afeganistão permanece hoje o que sempre foi, impedir um ataque terrorista aos Estados Unidos".

— Eu quero lembrar a todos como chegamos aqui. Fomos ao Afeganistão há quase 20 anos para impedir que  a al-Qaeda voltasse a nos atacar, e conseguimos fazer isso — afirmou Biden. — Nosso objetivo nunca foi construir um país. Nunca foi a criação de uma democracia unificada e centralizada.

Diante do caos na retirada americana em Cabul e do erro de cálculo americano sobre quando o Talibã chegaria à capital, Biden tem encontrado poucos defensores. O presidente estava desde sexta-feira na base de Camp David, onde deveria permanecer até quarta-feira. Ele voltou às pressas para a Casa Branca.

Há muitas críticas ligadas ao erro de leitura militar americano, que não reconheceu as deficiências do Exército afegão,  nem previu a velocidade de seu colapso. Nas últimas semanas, o próprio Biden minimizou repetidamente a possibilidade de o Talibã assumir o controle do país,  e rejeitou a ideia de que os americanos serem retirados às pressas da embaixada — exatamente o que aconteceu.

As cenas de Cabul nesta segunda-feira, incluindo afegãos agarrando-se a aviões militares, aumentam a impressão de que a guerra termina de modo caótico, semelhante ao Vietnã.

Segundo a imprensa americana, o próprio Biden está pressionando sua equipe de segurança nacional para entender como as avaliações subestimara tanto o poderio do Talibã.

Ainda assim, a exemplo do presidente, diversas autoridades americanas têm afirmado que o colapso do Exército afegão ilustra o despropósito de continuar a guerra.