Sem direito até de fugir.
O vídeo com dezenas de afegãos invadindo o aeroporto de Cabul e tentando se agarrar a um avião da Força Aérea dos Estados Unidos, para fugir do Talibã, mostra o nível da tragédia humanitária após a tomada do poder pelos extremistas.
Um detalhe não passou despercebido pela ativista paquistanesa e ganhadora do Prêmio Nobel Malala Yousafzai, de 23 anos: não havia mulheres entre os desesperados.
“Temo por minhas irmãs afegãs”, escreveu ela em artigo para o jornal ‘The New York Times’. Malala sobreviveu a uma tentativa de assassinato dos talibãs no Paquistão, quando tinha apenas 15 anos. “Estou profundamente preocupada com a segurança de mulheres e meninas”.
O talibã assumiu o controle do Afeganistão no último domingo (15), quando o presidente Ashraf Ghani fugiu e os insurgentes entraram em Cabul, após a retirada de tropas americanas.
O grupo fundamentalista islâmico liderou o país de 1996 a 2001 e impôs regras brutais em que meninas não podiam ir à escola, mulheres eram proibidas de trabalhar em empregos que as colocariam em contato com os homens e as pessoas eram apedrejadas até a morte.
Agora, com a retomada do grupo ao poder, as afegãs temem perder os direitos sociais e econômicos que conquistaram nas últimas duas décadas.
O Talibã impõe uma interpretação radical e estrita da lei islâmica que restringe severamente os direitos das mulheres.
“Os talibãs começaram a ir de casa em casa à procura das mulheres ativistas”, disse Humira Saqib, jornalista e defensora dos direitos da mulher no Afeganistão.
Durante 20 anos, Talibã proibiu meninas de ir à escola e mulheres de trabalhar com homens
A radical e estrita interpretação da lei islâmica faz com que o Talibã restrinja severamente os direitos das mulheres. Após duas décadas com mais liberdades, a volta do grupo fundamentalista ao poder ameaça as conquistas femininas no Paquistão.
Os primeiroa movimentos dos talibãs já mostram que as mulheres foram retiradas da programação dos principais canais de televisão do Afeganistão. Não há mais apresentadoras mulheres na TV, de acordo com a BBC Monitoring.
As mulheres também não podem mais usar vestidos ou fazer maquiagem, o que antes era permitido.
“Há muitas restrições agora. Quando eu saio, tenho que usar burca [traje que cobre todo o corpo], conforme ordenado pelo Talibã, e um homem precisa me acompanhar”, disse uma parteira de Ishkamish à BBC.
OUTRO LADO
O Talibã anunciou uma anistia geral no Afeganistão e pediu às mulheres que se juntem ao seu governo, em uma tentativa de convencer de que o grupo mudou. Mas a sensação geral é de ceticismo.