A tomada do poder pelo Talibã no Afeganistão ganhou os olhos do mundo e fez com que, do dia para a noite, a humanidade passasse a analisar a realidade enfrentada pelo país da Ásia Central sem que, necessariamente, fosse conhecedora das batalhas diárias encaradas pelo povo muçulmano.
A falta de conhecimento, aliada ao generalismo, tem facilitado a deturpação do islamismo e a associação com um terrorismo que vai na contramão do que prevê a religião. E é para combater a desinformação que Fabiola Oliveira, muçulmana que mora em São José dos Campos, usa das redes sociais e busca promover debates que atravessam fronteiras.
Em São José há mais de 15 anos, Fabiola nasceu no Brasil e foi conhecer o islamismo em um intercâmbio na Nova Zelândia, quando conheceu seguidores da religião e teve desperto o interesse sobre o islamismo. Anos depois, abraçou a religião para si e, inclusive, casou-se com um palestino, com quem tem dois filhos. Depois de muito estudo, viagens e de sentir na pele o preconceito com que os muçulmanos são tratados, levou o tema para conscientização e já acumula 36 mil seguidores no Instagram.
“Eu vejo que minha religião está em jogo e acabam usando um discurso muito generalista, com os muçulmanos muito reducionistas. A religião sempre é atrelada à violência, sendo que há um problema geopolítico, não religioso. Há a islamofobia, eu saio na rua e tenho medo de que as pessoas não compreendam”, explicou.
RESPEITO.
O islamismo é uma doutrina que segue os ensinamentos do Alcorão, considerado um livro sagrado com as revelações de Alá. Hoje, a religião é considerada a segunda maior do mundo e soma mais de um bilhão de adeptos. Apesar disso, ainda lida com uma série de preconceitos. Uma delas está em evidência neste momento e é relacionada à atenção que o ocidente tem dado ao uso de burcas -- o que pode não necessariamente ser problema às mulheres.
“As burcas antecedem o Talibã e o problema é quando a burca é forçada, de fato. Mas as pessoas jogam as fotos e acabam não contextualizando nada. O Islã condena tudo o que é compulsório”, explicou. “As mulheres já são tão violentadas e violam ainda mais, usando o corpo delas, as vestimentas delas, como se elas não fossem capazes de falar, elas têm essa capacidade”, reforçou.
Diante de um Talibã que cerceou os direitos das mulheres no passado, Fabiola também aborda a existência de uma ‘síndrome’ de salvamento ocidental, que se omite a ouvir as mulheres que, de fato, lidam com a mudança no poder.
“Precisamos fazer a escuta de quem vive, a escuta dessas mulheres, os movimentos sociais que estão acontecendo lá. Elas têm esse histórico de algo muito fundamentalista [com o governo Talibã] e elas mesmas estão batendo de frente. Essas mulheres têm voz, o que elas não conseguem é ter esse lugar de escuta”, destacou.
TALIBÃ.
Diante da tomada do poder pelo Talibã, Fabiola destaca que a região também sofreu com as intervenções anteriores, inclusive com a norte-americana, mas que, de fato, o período pode representar uma regressão.
“Vejo com preocupação por conta de todo o histórico. O Talibã não é conhecido por ser um grupo militar e político que atua de uma forma democrática, de uma forma muito bem colocada. Com o histórico, não dá para confiar, é algo a se temer, é algo a ser condenado. Mas, em contrapartida, a gente tem que pensar que é século 21, eles têm que ser muito inteligentes para que não caiam em cima de violação de direitos, com o mundo todo em cima”, colocou. “Pode ser que não façam as mesmas coisas, mas considero sim como um retrocesso porque deturpam a religião”, continuou.
PRECONCEITO.
Como muçulmana no Brasil, Fabiola, que é formada em Letras, conta não conseguir atuar como professora nas instituições de ensino devido ao uso do lenço, encarado de forma pejorativa e tido pelo ocidente como um ‘acessório’ da vestimenta.
“Das entrevistas que já fiz, sempre fui questionada da minha vestimenta, sempre ficou muito em evidência que ela era um empecilho. Nós não somos bem-vindas”, relatou. “O lenço não é um acessório, faz parte da nossa vestimenta completa”.
CONHECIMENTO.
No Instagram, Fabiola busca conscientizar por meio de vídeos, textos e ajuda os seguidores com recomendações. Entre os livros da lista, estão: Ser Muçulmano: um guia prático; O Islam em Foco; Believing: women is islam, além das produções audiovisuais O Grande Guerreiro Otomano, Justice e Victoria e Abdul.