Uma das principais vozes da ciência a alertar dos riscos de savanização da Amazônia, caso o desmatamento não seja zerado até 2030, o climatologista Carlos Nobre está muito preocupado. A Amazônia já dá sinais de exaustão.
“Há aumento da mortalidade de árvores do clima amazônico úmido e a floresta está reciclando menos água”, disse ele em entrevista exclusiva a OVALE. Confira:
Qual a situação da floresta Amazônia atualmente?
Já está em situação muito preocupante. Estudos científicos têm mostrado que, principalmente no sul da Amazônia, que passa por Acre, Rondônia e o sul do Pará, o período de estiagem chegou mais cedo e há um aumento da mortalidade de árvores do clima amazônico úmido e a floresta está reciclando menos água. Finalmente um estudo publicado pela pesquisadora do Inpe Luciana Gatti mostra que parte da floresta já não está mais absorvendo gás carbônico.
Como analisa isso?
O estudo mostrou que ali no sul da Amazônia a floresta não está mais absorvendo carbono. Todas as florestas do planeta retiram gás carbônico da atmosfera, que as nossas atividades humanas lançam. A floresta Amazônica já chegou a tirar dois bilhões de toneladas carbono por ano, caindo para 1 bilhão. O estudo da Luciana mostra que, no sul da Amazônia, a floresta em si está perdendo carbono. A floresta, não a parte desmatada. Está aumentando a taxa de mortalidade das árvores, que se decompõem e jogam carbono na atmosfera.
A Amazônia já está próxima do ‘ponto de não retorno’?
Fizemos estudos que mostravam que, se continuássemos com as mudanças climáticas associadas ao aquecimento global, que na Amazônia, além do aumento da temperatura da própria Amazônia, que já subiu 1,5 grau, o aquecimento global cria condições de secas extremas, como houve em anos anteriores.
Temos também os desmatamentos e as queimadas que consomem a floresta. Os estudos mostraram que se continuássemos nesse ritmo, passaríamos de um ponto de não retorno, com a savanização da floresta, com 50% da Amazônia se tornando uma savana.
Não há volta?
Isso pode se tornar irreversível. Se o desmatamento passar de 20% a 25% de toda a floresta amazônica, junto com a continuidade do aquecimento global, nós passaríamos desse ponto de não retorno. E estamos perto disso hoje. Tem cerca de 17% de área desmatada na Amazônia. Pelos nossos cálculos, qualquer coisa entre 15 e 30 anos e passaríamos desse ponto de não retorno, com a savanização da Amazônia. Mais de 50% se tornará uma savana degradada. Há cientistas que acham que já passamos desse ponto de não retorno. É uma situação muito preocupante.
Isso está mais veloz?
Projetávamos que a região pudesse virar uma fonte de carbono somente daqui a 30 anos. Mas a parte sul da Amazônia já parece realmente comprometida, a caminho da savanização. Antes, as grandes secas ocorriam na Amazônia a cada 25 anos. Agora chegamos a ter três em 15 anos e os efeitos desse fenômeno se prolongam por anos. O ponto de inflexão é aqui, é agora.
E a política ambiental?
Incentiva a abertura de enormes áreas para pasto, incentiva o desmatamento para garimpo, que é praticamente todo ilegal, e o corte e venda ilegal de madeira. A retirada da madeira começa a degradar a floresta. Tudo isso vemos aumentar muito, assim como os incêndios florestais. Tudo são fatores muito preocupantes no sentido contrário de proteger a floresta. A falta de implementação da fiscalização e os discursos políticos, inclusive os do presidente da República e do ex-ministro no Meio Ambiente [Ricardo Salles] e de outros políticos, vão na direção de fazer a floresta desaparecer.
Quanto perde o Brasil?
Brasil vinha reduzindo o desmatamento e a pecuária vinha crescendo. Ficou bem demonstrado que a produção pecuária não tem nada a ver com o desmatamento. O problema é a grilagem de terra, roubo de madeira e uma política ligada ao crime ambiental. Dez anos atrás o país estava liderando esse processo ambiental e agora o Brasil está correndo no sentido contrário. Somos um dos países mais prejudicados do mundo por não fazer a preservação ambiental e a proteção da floresta amazônica.
Como avalia os recentes episódios de chuvas na Europa?
O aquecimento global faz esses fenômenos de seca e de ondas de calor se tornar mais frequentes. Para o mundo científico, eles estão se tornando mais frequentes muito antes do que se pensava.
Já aumentamos em 1,1 grau a temperatura média do planeta, e estamos vendo esses fenômenos acontecerem.