10 de julho de 2026
Brasil

Políticos com popularidade baixa não costumam se reeleger nem fazer sucessor

Por Agência O Globo |
| Tempo de leitura: 3 min
Eleições no Rio

No patamar de 24%, segundo as últimas pesquisas, a taxa de aprovação do governo Jair Bolsonaro é motivo de alerta para o presidente, que pretende buscar a reeleição na disputa de 2022 — ao menos se considerado o exemplo de governadores que tentaram permanecer no cargo nos últimos pleitos. Um levantamento feito pelo GLOBO em parceria com o Ipec, instituto formado por ex-dirigentes do Ibope, mostra que, em 2018, apenas três dos 11 governadores que chegaram à eleição com avaliação positiva inferior a 30% tiveram sucesso.

A análise considerou resultados mensurados pelo Ibope, extinto este ano. Os casos identificados são de Waldez Góes (PDT), reeleito no Amapá com 19% de avaliação ótima ou boa antes do pleito; Paulo Câmara (PSB), de Pernambuco, que somava aprovação de 27%; e Belivaldo Chagas (PSD), de Sergipe, que tinha avaliação positiva de 28%. Entre os nove candidatos que superaram os 30% de aprovação, por outro lado, sete se reelegeram. As exceções foram Amazonino Mendes (PDT), no Amazonas, e Cida Borghetti (PP), no Paraná. Os dois governadores tinham aprovação de 36% e 34%, respectivamente.

O mesmo comportamento foi observado em 2014. Os dois governadores com aprovação abaixo desse percentual que disputaram as eleições — Camilo Capiberibe, no Amapá, e Agnelo Queiroz (PT), no Distrito Federal — não tiveram êxito. E 11 dos 16 governadores com aprovação superior a 30% se reelegeram.

Professora de Ciência Política da Unirio, Luciana Veiga afirma que a taxa de aprovação de um governante é um forte indicativo de desempenho das urnas, mas não o único:

— A literatura (de ciência política) chega a considerar que as taxas são quase equivalentes, ainda que haja outras variáveis. Além da reprovação, vai depender do cardápio ofertado, uma vez que o eleitor compara o desempenho do governante com outros candidatos e pode rejeitar mais os outros do que ele. E de se haverá responsabilização do candidato pelas ações negativas do governo. Bolsonaro já vem adotando a estratégia de atribuir a responsabilidade em relação às mortes e aos resultados da economia aos governadores, ao STF e à Câmara desde o início da pandemia.

O cientista político Cesar Zucco destaca que a aprovação do governo é um indicador mais relevante do que as intenções de voto neste momento , com cenário eleitoral ainda indefinido. Dados analisados por ele referentes a oito países e quase 60 eleições presidenciais realizadas na América Latina até 2017 indicam que, entre 15 presidentes com popularidade abaixo de 30% um ano e meio antes do pleito, só houve dois casos de reeleição ou eleição de sucessor: o do ex-presidente argentino Eduardo Duhalde, que apoiou Néstor Kirchner em 2001, e o de Itamar Franco, que elegeu um sucessor, Fernando Henrique Cardoso, em 1994:

— Se a aprovação de Bolsonaro continuar próxima aos níveis atuais, ele não ganha, nem passa perto. A expectativa de melhora da economia o favorece. Resta saber se melhorará o suficiente para torná-lo competitivo.

Bolsonaro enfrenta seu pior momento junto à opinião pública, com o avanço da CPI da Covid. O Datafolha registrou recorde de rejeição, de 51%, em um levantamento divulgado no início do mês. O Ipec, por sua vez, registrou queda de quatro pontos na sua avaliação positiva e alta de dez na rejeição, de 39% para 49%, em pesquisa divulgada em junho.

Para o cientista político Josué Medeiros, da UFRJ e do Núcleo de Estudos Sobre a Democracia Brasileira (Nudeb), o fato de ter um opositor competitivo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é um complicador para Bolsonaro. Ele pondera, no entanto, que o presidente ainda pode recorrer à máquina do governo:

— O quadro sinaliza um cenário difícil em 2022, que tem tudo a ver com as trocas recentes nos ministérios. A máquina ainda pode fazer diferença: é possível que o presidente use dinheiro e pacotes com benesses, como um Bolsa Família turbinado. Vai depender também da Economia. Mas se ele chegar à eleição com a popularidade muito fragilizada, esse movimento se perde. (Colaborou Dimitrius Dantas)