10 de julho de 2026

'Não sou eu que estou saindo do PSDB, talvez é o PSDB que está saindo de mim', afirma Felicio

Por Thaís Leite |
| Tempo de leitura: 8 min
O prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB)

Prefeito de segundo mandato em São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB) vive o momento de maior insatisfação dentro de seu atual partido. Apesar do descontentamento, o prefeito da maior cidade da RMVale nega que esteja negociando com outros partidos e disse ainda não ter uma definição sobre uma eventual disputa para 2022.

Em entrevista a OVALE, ele abordou o papel de São José para o futuro do país, o enfrentamento da pandemia e projetos em desenvolvimento. Confira:

Qual o papel de São José para o futuro do Brasil?

Como a sétima cidade em exportação no país, a gente tem uma responsabilidade muito grande, não só o Poder Executivo, eu como prefeito, mas os empreendedores da nossa cidade, e o que a gente percebeu já ao longo da pandemia é a resiliência desses empreendedores, empresários, comerciantes, prestadores de serviço ao longo da pandemia, que conseguiram se reinventar. Por isso que a nossa cidade, mesmo num momento difícil para o país, consegue se recuperar de forma mais rápida. Sou otimista com a capacidade de resposta do cidadão de São José, São José tem uma economia com várias frente, a gente tem hoje a indústria, que tem uma representatividade muito importante para o ICMS, o setor de serviços, que hoje tem uma maior representatividade na geração de emprego, a indústria da construção civil, que tem também sido bastante aquecida por conta da qualidade de vida da cidade e atratividade de novas empresas e de novas pessoas para a nossa cidade. Então, o cenário é de otimismo e de fato para que a gente possa através dos exemplos de São José ser uma inspiração para todo o Brasil.

- Como o joseense lidou com esse momento?

A grande maioria tem entendido a importância de fazer a sua parte para proteger as outras pessoas ao longo da pandemia. Mas é claro que a gente sempre tem uma parcela da população que ainda insiste em não acreditar na efetividades das medidas propostas pelos especialistas. Aqui em São José, desde o início da pandemia, o Poder Executivo procurou escutar especialistas, através de seu Comitê de Enfrentamento, e através das ações do Poder Executivo e do Legislativo procurar incentivar a população para que também faça a sua parte. Mas o balanço geral é que a gente conseguiu atravessar esses períodos com um balanço mais positivo do que negativo, a grande maioria da população compreendeu o momento especial que o mundo vive e faz sua parte.

- Quais foram as medidas mais acertadas e equivocadas do governo na pandemia?

A primeira medida mais acertada foi a formação de um dos primeiros comitês de enfrentamento para uma cidade do porte como a nossa, uma cidade que prontamente se mostrou segundo a transparência, foram dezenas de entrevistas coletivas, apontando porque que escolhemos cada caminho quando escolhemos cada caminho. Depois as ações como a própria construção do hospital de retaguarda, a distribuição de oxímetro, duas ações inéditas em qualquer outra cidade do mesmo porte no país. Ações inéditas que mostraram que a nossa equipe estava comprometida em mostrar novas soluções para esses problemas. Ao longo da pandemia, nós sempre justificamos ações e tivemos alguns enfrentamentos, os quais não me arrependo de nenhum, até porque foi se comprovando ao longo da pandemia que muitas coisas ainda precisavam ser respondidas, aliás, a mesma coisa até hoje. Mas o resultado e o balanço de tudo isso é positivo, já que São José tem o menor número de óbitos por habitante entre as 17 maiores cidades do estado de São Paulo.

- Como avalia o ritmo da campanha de vacinação?

Primeiro, acho que a chegada das vacinas começou tarde, poderia ter começado antes, mas o volume de vacinas dos últimos 60 dias tem sido adequado, sempre poderia ser melhor, nós teríamos capacidade de vacinar aproximadamente 15 mil pessoas por dia, se nós tivéssemos vacina. Portanto, nós temos capacidade ociosa, ou seja, a gente quer mais vacinas, então eu não posso concordar que o ritmo é um ritmo ideal. Mas eu diria que nessa velocidade, provavelmente com a chegada das vacinas anunciadas, nós vamos conseguir terminar as primeiras doses antes do que setembro, entre a terceira e quarta semana de agosto, pelos meus levantamentos baseados nas futuras entregas previstas ao governo federal.

- Para quando prevê o lançamento da segunda etapa da Linha Verde?

Não temos previsão ainda sobre a segunda etapa, mas nós já estamos trabalhando em projetos, estamos construindo um futuro edital. Nós precisamos viabilizar economicamente, uma das características da nossa gestão é anunciar projetos que efetivamente são realizados. Anunciei a primeira etapa da linha verde e vou anunciar a segunda etapa quando eu tiver a garantia de que nós temos os recursos e as condições de, de fato, executar.

- A Linha Verde deve ser o maior legado do segundo mandato?

É uma obra muito importante, vai mudar e vai transformar a forma das pessoas andarem na cidade. Mas nós temos a licitação do transporte público que vai envolver muito mais gente que a própria Linha Verde, porque envolve toda a cidade em todas as regiões. O novo desenho do transporte coletivo vai trazer um maior conforto, quantidade de viagens, novos veículos para a população. O meu desejo é concluir todo esse processo e ser um exemplo em transporte público onde a Linha Verde tem também um grande peso.

- O senhor descarta deixar a cadeira para uma disputa em 2022?

Hoje a minha missão é continuar trabalhando em relação à pandemia, para que São José permaneça sendo exemplo, continue com os seus indicadores da forma que estão. Esse é o meu único foco hoje. Não descarto e nem digo que estarei, eu sempre vou lutar pela minha cidade em primeiro lugar. Agora é hora de trabalhar pela minha cidade, em relação a 2022 não vejo nenhuma possibilidade nesse momento de falar sobre esse cenário.

- Como está sua relação com o PSDB? Deve deixar o partido?

É algo do meu destino político, e esse é o momento que eu passo pela maior insatisfação em relação ao partido, ao PSDB, ao longo da história, afinal estou há 28 anos no PSDB. Eu passo pelo maior incômodo em relação ao PSDB, principalmente no estado de São Paulo, onde a gente vê alguns direcionamentos, algumas decisões do partido que eu nao concordo. Uma delas, a fala do Fernando Henrique Cardoso em relação ao Lula, antecipando até qual seria sua opção futura, acho que não era o momento de se posicionar. Discordo totalmente da posição dele, acho que como um grande líder, nosso presidente de honra, não era o momento adequado para ele dar a impressão que essa é uma posição que o partido inteiro concorde. O PSDB sempre foi um partido muito orgânico e acho que ele está perdendo essa características. Por fim, acho que não sou eu que estou saindo do PSDB, talvez é o PSDB que está saindo de mim, é alguma coisa desse gênero. Não tenho nenhuma decisão tomada, só que hoje é o meu maior momento de insatisfação em relação à política partidária do PSDB.

- Chegou a receber propostas de outros partidos?

Não, ainda não cheguei a receber proposta nenhuma, tenho conversado com vários partidos, com várias lideranças, mas isso faz parte do meu papel como prefeito. Já recebi vários presidentes de outros partidos aqui em São José e vou continuar recebendo porque isso ajuda a dar mais visibilidade para a cidade, mas nenhuma conversa específica sobre mudança de partido. É o momento de maior insatisfação, isso não significa que essa insatisfação me levará necessariamente a deixar o partido.

- Qual a São José do futuro?

O primeiro ponto é a São José da sustentabilidade, da qualidade de vida, ela tem que continuar sendo a cidade que todos nós somos apaixonados. Essa cidade onde você consegue se deslocar por vários modais, essa cidade onde você tem vários parques, áreas de lazer espalhadas por toda a cidade. Isso não significa que a gente não tem muito ainda o que fazer pela cidade, mas é uma cidade que é reconhecida pela população ao longo de toda a construção ao longo do anos, pela qualidade de vida. Não é à toa que a gente sempre diz que o bom, bom mesmo, é viver em São José. Essa é uma verdade percebida pelas pessoas, então nós temos que tomar todos os cuidados para que essa grande qualidade da cidade permaneça, então qualidade de vida e sustentabilidade. É claro que para a gente possa ter isso na essência, sustentabilidade vai além só da questão ambiental, vai do cuidado social e da própria geração econômica, de renda. São José tem todas as condições, até por conta de ter atraído novas empresas, startups, empresas do Parque Tecnológico, de estar à frente de uma nova etapa do nosso país com a sua indústria ligada a engenharia, a gente quer ver a São José exportando serviços de biotecnologia, nós já temos núcleos implantados e uma São José com as suas indústrias mais solidificadas e consolidadas. A expansão industrial em uma cidade como São José tem que ser muito bem pensada, porque não é uma cidade como algumas outras do interior que tem grandes áreas ainda disponíveis, então nós temos que aproveitar bem as áreas que nós temos para desenvolver e fortalecer cada vez mais o setor da indústria. Então, a cidade que eu vejo é a da sustentabilidade em seus três eixos: social, econômico e ambiental, e a cidade com a qualidade de vida que é exemplo para outras cidades.