09 de julho de 2026

São José se prepara para salto tecnológico do século 21

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 6 min

Dicionário em atualização...

Inteligência artificial, mobilidade elétrica, indústria 4.0, telefonia 5G, internet das coisas, computação em nuvem, Big Data, sistemas integrados, fábricas inteligentes, automação, robótica avançada, blockchain.

Dá para escrever boa parte do texto só com as novidades que pavimentam o salto tecnológico da indústria no século 21. A era digital é a quarta revolução industrial e tão ou mais impactante do que a primeira, entre 1760 e 1840, quando surgiram as máquinas.

Desta vez, a máquina sofisticou-se a tal ponto que abandona o próprio conceito de “máquina” como o conhecemos.

A tecnologia expandiu-se e foi para dentro do bolso das pessoas, em seus celulares, e ao mesmo tempo alimenta softwares ultramodernos, plataformas de 3D e 4D, interatividade digital e ferramentas que a Embraer usa para projetar os aviões do futuro.

Sede da Embraer, São José dos Campos está preparada para tornar-se, mais uma vez, o ponto de partida dessa revolução industrial transmitida por cabos de fibra ótica, dados digitais e comunicação por satélite.

São José é uma das cidades mais industrializadas do país, sede de grandes companhias, como montadoras de veículos, fabricantes de aviões, de medicamentos, de armamentos, de sistemas de defesa e de tantas outras coisas.

Agora, na segunda década do século 21, a indústria se volta para gerar, operar e fornecer informação e serviços. O futuro será por esse caminho. “A cidade está preparada para a quarta revolução industrial. Tem todo o potencial de liderar essa marcha para o futuro”, diz Alberto Alves Marques Filho, secretário de Inovação e Desenvolvimento Econômico de São José dos Campos.

Para o prefeito Felicio Ramuth (PSDB), a cidade está bem posicionada por “estimular o desenvolvimento e a capacitação das pessoas em atribuições de grande valor agregado”. Segundo ele, o segmento da prestação de serviços será a “área do futuro” e vem ganhando impulso com uma política da prefeitura que estimula ações nessa área.

“O automóvel daqui a pouco vai deixar de ser um produto e passar a ser um serviço. As casas também. Cada vez as novas gerações querem usufruir e não necessariamente ter. Isso transforma. Estamos nessa linha”.

São José deve ser uma das cidades do país, além das capitais, a ser escolhida pelo governo federal para projeto piloto de uso da telefonia 5G ainda neste ano, que irá revolucionar a comunicação e a transmissão de dados.

Segundo Marques Filho, a rapidez da tecnologia 5G vai permitir diversos avanços na prestação dos serviços públicos, desburocratizando atendimentos, reduzindo tempo e aumentando a eficiência. “São José vai ganhar muito com a tecnologia 5G, dentro do conceito que já adotamos de cidade inteligente”, diz o secretário.

INDÚSTRIA.

A “indústria da informação” é um dos segmentos com expansão garantida nos próximos anos em São José. Todas as áreas serão contempladas. O Parque Tecnológico é um dos celeiros dessa nova economia que vai se consolidando na cidade e no país.

Lá, pode-se encontrar a Nick, empresa alojada desde 2019 na incubadora do Parque Tecnológico e que vem provocando uma pequena revolução digital no atendimento em saúde. Os fundadores e sócios Flávia Quintanilha, diretora executiva, e José Felipe, especialista em gestão de saúde, criaram a empresa em 2016 como uma Big Data para coletar e integrar dados de saúde.

“Entendemos que a saúde tinha muitas oportunidades para melhorias. Uma delas é coletar dados no processo da saúde e conseguir gerar modelagens de dados, para prevenir doenças, melhorar a qualidade do atendimento e o desempenho”, explica Flávia, que nasceu em Pindamonhangaba, formou-se em comunicação na Unitau e passou 20 anos trabalhando em Campinas, para voltar a São José.

“Nick nasceu para gerar mais qualidade ao paciente, redução de custos para a operação e transformar todo o ecossistema de saúde de forma otimizada e acessível para todo mundo. Em resumo: coletamos e entregamos dados para quem precisa.”

Tendo como clientes hospitais e clínicas, tanto públicas quanto privadas, e as prefeituras, a empresa cria uma plataforma via internet e aplicativo capaz de se comunicar com os sistemas das unidades e conectar médico, paciente e gestor. É um sistema modular que gera vários produtos digitais. “Somos uma tecnologia para melhorar toda a performance do atendimento na saúde e a qualidade de coleta de dados”, diz Flávia.

Em São José, além do setor privado, a Nick atua em duas unidades públicas, a UES 2 (Unidade de Especialidades em Saúde) e o Hospital de Clínicas Sul. Os pacientes têm um cartão com QRCode que dá acesso ao prontuário médico, exames e informações sobre tratamento. Também se pode receber acompanhamento em tempo real, nas unidades.

“O paciente permanece menos tempo nas unidades e entregamos dados para que a gestão faça um atendimento mais qualificado daquela pessoa. Coletamos dados e conectamos todos os pacientes. A parte burocrática a Nick faz”, destaca Flávia.

É a chamada ‘jornada digital do paciente’ que torna a ‘jornada física’ cada vez mais simplificada e produtiva, com ganhos para todos os lados: pacientes, médicos e a gestão pública.

Flávia afirma que a cidade de São José permite esse impulsionamento de empresas como a Nick, com potencial para nortear os processos tecnológicos do futuro. “O ecossistema de São José é muito desenvolvido e apoia muito as empresas. Companhias e a prefeitura estão abertas a receber mais tecnologia. Isso permite que empresas como a nossa quebrem barreiras e tenham ambiente fértil para trabalhar”, diz a diretora executiva.

“Na cidade, temos empresas que apostam na inovação e que querem inovar. São José se transforma num polo muito forte de inovação, entre os principais ecossistemas mundiais”, completa.

ECONOMIA.

Passando da saúde para a área de defesa, importante segmento da economia de São José, Ricardo Ramos, que é do Conselho Diretor da Siatt, diz que a cidade é capaz de atrair grandes empresas do setor à região, o que permite desenvolver parcerias e viabilizar “grandes projetos voltados ao setor aeroespacial”.

A Siatt atua em projetos, desenvolvimento e fabricação, com foco em eletrônica embarcada de sistemas de alto teor tecnológico, como armamentos inteligentes, integração de sistemas, radares, sensores e equipamentos para veículos lançadores de satélites. “São José tem trazido, há muitos anos, excelentes profissionais que nos ajudaram a construir um ‘know how’ em armamentos inteligentes, graças à nossa retenção de formandos de institutos da cidade, como o ITA, ETEP, Senai, Fatec, Univap, por exemplo”, diz Ramos.

Segundo ele, outra vantagem é a oportunidade de proximidade com Inpe e DCTA, permitindo às empresas utilização compartilhada de máquinas e equipamentos para desenvolvimento de tecnologias de ponta. “Grandes tecnologias necessitam de um grande investimento de recursos que inviabilizariam o nosso desenvolvimento, caso fosse necessário adquiri-los”, explica o executivo.

Para Ramos, São José ocupa posição privilegiada entre as maiores cidades exportadoras do país e o setor tecnológico tem sido “muito bem visto no exterior para desenvolvimento com custo mais atraente”. “Constantemente somos procurados para ofertar nossas tecnologias no exterior e o posicionamento da cidade no setor econômico do país tem sido um bom diferencial para atrair esses investimentos”, finaliza.

E que venha o futuro.