Tipping point é um conceito muito usado na Física que se refere à adição gradual de uma pequena quantidade de peso a um objeto balanceado até que o peso adicional o faça, repentinamente, virar ou tombar. Isto é, a mudança ocorre em grandes saltos - uma virada - após uma acumulação lenta de estresses aos quais o sistema resiste até atingir o ponto de ruptura. A expressão ganha uma compreensão mais adequada quando a usamos em analogias entre processos dinâmicos naturais ou sociais: adicione calor à água gradualmente até que ela ferva; oprima os trabalhadores mais e mais, e desencadeie a revolução. Em português, "tipping point" pode ser traduzido como ponto crítico, ponto de inflexão, de vidada ou de não retorno. Eu prefiro a última definição. A água não volta às suas características iniciais depois de fervida.
Esta semana, a expressão "tipping point" foi amplamente divulgada porque um estudo realizado por pesquisadores do INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais) mostrou que as interferências na floresta amazônica estão transformando o bioma de um modo tão profundo que ele, em alguns pontos, já perdeu sua função mais nobre: a de retirar o CO2 da atmosfera e atuar no processo de controle das mudanças climáticas.
O trabalho mostrou que, por conta do desmatamento e queimadas descontroladas, a emissão de CO2 na parte sudeste da floresta, onde está localizado o "arco do desmatamento", é três vezes maior do que a quantidade que a floresta consegue absorver. O oeste amazônico, mais preservado, por sua vez, continua a manter sua função, atuando como um verdadeiro "ralo" para o gás carbônico a mais emitido pelas atividades humanas.
O conceito de tipping point para a floresta amazônica não é novo. Há 30 anos especialistas vêm alertando que isso poderia acontecer. Mas não se esperava que ele fosse uma realidade já no começo da década de 2020.
Menos árvores significa mais carbono na atmosfera, menos chuvas e temperaturas mais altas, tornando a estação seca ainda pior para a vegetação remanescente, com maior probabilidade de incêndios. É um ciclo vicioso e destrutivo, cujo resultado final é a transformação da floresta úmida em savana.
Ainda é possível frear esse processo de destruição. É imperativo zerar o desmatamento e as queimadas, mas isso só será conseguido quando nós, individualmente e como sociedade, cobrarmos de nossos governantes que as leis ambientais sejam colocas em prática, quando elegermos melhores candidatos, quando levantarmos nossas vozes contra a destruição de nossas riquezas e por um futuro viável para nós mesmos e nossos descendentes.
A sociedade brasileira tem, principalmente ao longo dos últimos dois anos e meio, acumulado estresses de todas as ordens. Me pergunto quanto ainda falta para ela chegar ao ponto de ruptura, para atingir seu próprio "tipping point".