O Vale do Paraíba e a capital paulista foram as principais regiões de surgimento dos bandeirantes, os exploradores que desbravaram o estado e o Brasil nos séculos 16 e 17.
Um desses foi Manuel de Borba Gato (1649-1718), bandeirante paulista que atuou como descobridor de minas, especialmente as de ouro.
Recentemente, o nome de Borba Gato saiu das páginas históricas para o noticiário policial depois que uma estátua dele foi incendiada na capital. Duas pessoas foram presas.
O tema é controverso e suscita debates acalorados sobre a atuação histórica desses exploradores, que não raro são apontados como escravocratas e escravizadores de índios.
"Eles são desbravadores no momento em que viveram. Agiram de acordo com a moral da época", diz o historiador Diego Amaro, que é mestre em História Social, coordenador do curso de História do Centro Unisal de Lorena e presidente do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos). Confira.
Quem eram os bandeirantes?
Os bandeirantes são valeparaibanos ou do Planalto do Piratininga, a região da capital paulista. No Vale do Paraíba, eles eram principalmente de Taubaté ou de Guaratinguetá. Isso no final do século 17.
Por que bandeirante?
O nome bandeirante é posterior e não é como eles se reconheciam naquela época. Eram exploradores que tinham líderes, como Fernão Dias, e exploravam as regiões em busca de aprisionamento de indígenas e de ouro. Por exemplo, foi um taubateano, Antônio Rodrigues de Arzão, que encontrou ouro pela primeira vez no Ribeirão das Mortes, em Minas Gerais. Esses homens também eram conhecidos como sertanistas.
Como eram vistos?
Para a época, eles são grandes exploradores porque existia uma demanda desenvolvimentista que queria expandir os territórios, trazer mão de obra, encontrar metais preciosos. Eles são desbravadores no momento em que viveram. Agiam de acordo com a moral da época. Tinha a ver com a época em que viviam.
Como o sr. os vê?
Foi um movimento importante para desenvolver o Brasil, pelo trabalho exercido por esses bandeirantes. Vejo como erro o aprisionamento de indígenas, mas naquela época isso era aceito, e não tinha punição. Como se diz, o passado é terra estrangeira.
E o Borba Gato?
Ele é mais ligado aos metais preciosos, às minas, à busca de ouro no Brasil. Ele deu uma ajuda para o ouro brasileiro ir para Portugal.
O que achou do ataque à estátua de Borba Gato, em São Paulo, que foi queimada?
Hoje não vamos fazer uma estátua dele. No tempo dele fazia sentido, porque ele simboliza o desbravador. É a força dos paulistas naquela época. Mas ninguém vai fazer algo com o nome dele hoje. Nada impede que outras estátuas sejam erguidas que fazem mais sentido agora. Não há alguém 100% idôneo. A estátua é uma representação da força do bandeirante, que era o desbravador. Não tem como apagar a História, mas aprender com ela para não se reproduzir de novo. É preciso olhar e ressignificar Borba Gato no nosso tempo. Queimar estátua é um ato de violência. Não é a melhor maneira de fazer críticas a um momento histórico do país, mesmo porque não se deve apagar o passado, mas aprender com ele.
Há estátuas ou alguma homenagem a Borba Gato aqui no Vale do Paraíba?
No Vale, o bandeirante Borba Gato batiza o 2º Batalhão de Engenharia de Combate, sediado em Pindamonhangaba. Também há uma estátua que homenageia os bandeirantes em Taubaté, não exclusivamente de Borba Gato. Mas é importante lembrar que há figuras do período republicano e imperial que são escravagistas. Figuras que eram imorais já no tempo do império. Hoje é sutil quando faço esse anacronismo, porque julgar o passado com o juízo de agora, não fecha essa conta.
Há um clima beligerante no Brasil e de ataque às instituições, que são estimuladas pelo presidente da República. Isso provoca reações, às vezes violentas. Como vê o momento que estamos vivendo? Há risco para a nossa democracia?
Há governantes ultrapassando os limites da Constituição. Ela tem que ser respeitada. Posso divergir da Constituição, mas não desrespeitar. A Constituição é manual de como tudo tem que funcionar. O presidente tem seu poder e não pode interferir no poder do outro. Como a coisa está tão quente fica difícil parar e fazer essa reflexão. Se [o presidente] levar o Exército para a rua, pode causar um grande dano, por isso acho que é da boca para fora [as ameaças]. O que o presidente está fazendo é ameaçar, porque está se sentindo ameaçado. Vejo como mais uma ameaça do que algo palpável.
O que a História dirá do Brasil de hoje?
Muita gente acreditava que era impossível repetir uma pandemia como a gripe espanhola, assim como acham que é impossível a volta da ditadura. Não sei se não é. Em 1918 [ano da gripe espanhola], não aprendemos nada. Não acredito que aprenderemos muita coisa agora. Todos os problemas políticos que tivemos e não aprendemos nada, porque a educação falha. Uma nação bem educada é criativa e encontra caminhos para sair de qualquer crise. A educação traz instrumentos. Falta educação. Não vejo o país melhor.