09 de julho de 2026
Política

Reforma administrativa é maior desafio, afirma reitora da Unitau

Por Julio Codazzi@juliocodazzi |
| Tempo de leitura: 12 min
Fachada da Reitoria da Unitau

Nara Fortes completa um ano de mandato nessa terça-feira; em entrevista ao jornal, reitora falou sobre outros temas, como venda de imóveis, queda no número de matrículas, Medicina em Guará e reajuste do funcionalismo

A reitora da Unitau (Universidade de Taubaté), Nara Fortes, completa nessa terça-feira um ano de mandato. Em entrevista ao jornal, ela falou sobre temas como reforma administrativa, venda de imóveis, queda no número de matrículas e reajuste salarial do funcionalismo.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

1) A senhora disse, antes de assumir, que a primeira missão era traçar um diagnóstico administrativo e financeiro da Unitau. Como a senhora recebeu a universidade?

R: Nós fizemos um diagnóstico e apuramos todas as ações, todos os departamentos e as atividades. Tanto a parte de infraestrutura, quanto financeira, e também de ocupação, de atendimentos, agilidade, frequência de trabalho, o quanto é importante cada setor. A partir daí, uma questão que a gente está enfrentando, que foi o ponto de partida, foi a infraestrutura. Por muito tempo, fizemos muito pouco investimento em infraestrutura, e a universidade, com essa característica de não estar em um campus único, e por ter prédios antigos, a manutenção, a adequação dela para esses tempos modernos, exige outros métodos, outras tecnologias. Para adaptar um prédio antigo tem um custo muito alto e demora, não é uma obra comum.

Começamos pelo Bom Conselho, precisava de melhores condições de laboratório, salas de aula, climatização, equipamentos. Lá funcionam vários cursos na área de saúde, você precisa ter isso bem modernizado. Viemos para a Odontologia. É uma coisa que as pessoas não percebem, como troca de telhado, mas num prédio antigo isso tem que ser feito e não é uma coisa simples.

A parte financeira, nós tivemos queda no número de alunos no segundo semestre do ano passado. Foi uma queda pequena, ela permaneceu no início do ano de 2019, mas nós intensificamos a cobrança [da dívida ativa]. Então, financeiramente, teve um equilíbrio. É o que mantém a universidade hoje com todos os seus compromissos em dia.

2) Diante disso, que balanço a senhora faz do primeiro ano?

R: A universidade tem uma marca forte. Ela tem qualidade de ensino, ela tem tradição, mas realmente precisa acompanhar esses novos tempos da educação. Então, eu avalio que precisamos ter infraestrutura adequada, qualificação dos nossos professores, que é a formação deles, o incentivo em programas de mestrado e doutorado -- o desafio maior é fazer isso de uma forma que os professores que têm 20, 25 anos de casa, se adaptem a essa adequação. O desafio é chamar essa comunidade toda, de 1.200 servidores, para se adequar aos novos tempos de uma universidade, que não é a mesma que foi fundada 45 anos atrás, e isso passa pela necessidade de uma reforma administrativa, que não é fácil de fazer e estava no meu programa de gestão. Mas não é simples você fazer um organograma, descrever as funções e mudar. Uma reforma administrativa, em uma instituição de ensino superior pública, com características específicas, ela é demorada, passa por uma mudança de cultura. Acho que esse é o maior desafio desse um ano, colocar essa reforma em pé. Você vai mudar a maneira da gestão da universidade.

3) Que medidas práticas a senhora espera com a reforma administrativa?

R: Primeiro é ver o que o mercado educacional espera de uma instituição. Nós estamos adequados? A universidade, da forma como está distribuída, por departamentos, é eficiente? Será que só uma coordenação não seria suficiente, com um grupo de professores? As pró-reitorias, da forma como estão descritas, os trabalhos que elas fazem, atendem essa demanda? As questões da administração financeira, com suas fundações, precisa tudo isso?

O que estamos discutindo são as funções, os cargos, chegando ao formato, ao modelo dessa instituição. A gente tinha começado pelo modelo, mas a gente precisa conhecer as bases que sustentam o modelo. Então nós voltamos e estamos desenhando as bases. É necessário você ter Controle Acadêmico e Secretaria-Geral? Ou podemos agregar e otimizar? Então, estamos nessas discussões. O modelo não [temos definido ainda]. Estamos nas discussões do formato. Passa por criar cargos e suprimir cargos. A universidade tem que ter todas essas fundações? Qual o objetivo de todas elas? É uma discussão administrativa e acadêmica. Estamos terminando [a discussão da reforma], para até o final do ano fazer uma audiência, apresentar ou o modelo ou os modelos. Não estamos inventando nada, estamos adaptando o que nós temos. Se você suprimir um setor, os funcionários vão migrar para outro, que precisa estar compatível. Então, são várias questões em que você precisa ter cuidado.

4) A senhora prometeu repensar as fundações e buscar novas fontes de receita por meio delas. Como pretende fazer isso?

R: Depois de um ano, o único repasse para uma fundação foi para a Funcabes, que é responsável pelos benefícios -- plano de saúde, vale-alimentação, vale-transporte -- dos servidores. As demais se reinventaram, elas estão se mantendo, estão se tornando autossustentáveis. Deixei de repassar mais de R$ 600 mil nesse período para as fundações.

5) A ideia de reunir setores de Biociências, Exatas e de Humanidades avançou?

R: No departamento das engenharias, unificamos as secretarias. Tinha três secretarias em um mesmo prédio. Hoje tem uma só, para atendimento ao público, nossos alunos e professores. Estamos já trabalhando para no final do ano levar a Engenharia de Computação, que é do prédio da Marechal. No prédio da Marechal, onde funcionam Engenharia da Computação, Matemática e Física, e os outros cursos na área de computação, irão para a Juta, que é área de Exatas. Também funciona o EAD, que dia 3 de julho vai para a nova sede, na Rua das Palmeiras, antiga Pedagogia. Unificamos a Pedagogia, que é da área de Humanas, nas Ciências Sociais e Letras. Então, as licenciaturas estão unificadas. Na antiga Pedagogia será o EAD, ensino semipresencial, o híbrido, as metodologias ativas, as novas formas de ensinar. E, no futuro próximo, a universidade virtual. O prédio da Marechal será desocupado e vamos avaliar qual será a função dele.

A Biociências estamos unificando. Lá, para cada departamento, temos uma secretaria. Vamos unificar a secretaria de Educação Física, Fisioterapia, Biologia e o Instituto em uma só, pela desburocratização da documentação, a Unitau tinha essa característica, trabalhando muito com secretaria virtual. Da área de Biociências, tirando Odontologia e Agronomia, que funciona numa fazenda, as demais estão todas lá [no Campus do Bom Conselho]. E, no futuro, até levar a Odontologia para o Campus do Bom Conselho, temos espaço.

6) Essa mudança administrativa passa pela venda de imóveis?

R: Passa sim. Os imóveis que não são utilizados para ensino, gostaríamos de disponibilizar. Estamos disponibilizando a Casa de Ubatuba, no Itaguá, e também o Campus de Ubatuba. Também estamos avaliando o prédio onde funciona a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, é uma avaliação que estamos fazendo ainda, de mercado, e a Marechal também. Ainda não sabemos o que vamos vender e o que vamos otimizar, quem sabe unificar as pró-reitorias num lugar único. Há projetos para compactar mais, para eficiência no serviço, economia em vigilância, limpeza, locomoção dos alunos. Tem uma equipe que está estudando isso. Nós tivemos uma redução de R$ 500 mil nesse primeiro ano de despesas, não prejudicando o andamento das ações, com essa reorganização da instituição.

7) A Unitau tem enfrentado, ano após ano, queda de matrículas. Como resolver isso? O EAD é suficiente para compensar?

R: Poucas pessoas sabiam que a Unitau tinha EAD, e hoje ela tem 40 polos. Ele estava na Marechal escondido, em uma era de tecnologia em que está chegando a concorrência, em cada esquina tem um polo. A universidade, com um patrimônio desse, tinha que dar visibilidade. Só com a proposta da mudança, de começar a divulgar, aumentamos de 2018-2 [segundo semestre de 2018] até hoje 450 alunos no EAD. Nós produzimos os próprios fascículos, não compramos material. Isso é um grande diferencial. A universidade faz parte da associação das instituições municipais de São Paulo. Eu fui num congresso e ofereci como polo, se eles queriam ser polo da Universidade de Taubaté. Você faz um convênio, e isso também abriu esse leque com essas instituições. Vamos intensificar sim o EAD, tanto no Vale quanto fora. Nós já temos autorização para funcionar fora do estado. Podemos oferecer no Brasil inteiro.

Outra proposta seria os cursos de stricto sensu [mestrado e doutorado], em que nós não perdemos alunos, nós aumentamos o número de alunos. Temos hoje 10 mestrados, todos com alunos. A maioria tem nota 4 pela Capes. Temos um doutorado e estamos com parceria de um Dinter (Doutorado Interinstitucional), em conjunto com a Estácio de Sá, na área de Educação.

Também estamos formatando uma secretaria para cuidar dos cursos de lato sensu [especialização], para ver o que o mercado quer.

Criamos a coordenadoria de Marketing e Venda, que está funcionando aqui na Reitoria, em conjunto com a Acom (Assessoria de Comunicação), para que trabalhe todos os nossos cursos.

8) O EAD tem 2.300 alunos. A Graduação, 8.260. Isso pode ser equiparado por futuro?

R: Não vai nascer aluno já com 18 anos para vir para a universidade. Temos que buscar esses alunos, captá-los, seduzi-los. O público que vai para o EAD não é o público que vem para o presencial. Cresce muito [o número de] alunos que querem comodidade, têm um trabalho diário, não têm tempo. Isso vai crescer, até porque não vou pegar alunos só do Vale. A meta é chegar a 55 polos no final de 2019. Então, acredito que nos próximos cinco, seis anos, você consiga ter [uma equiparação].

No presencial, temos que ter novas tecnologias, novas metodologias, não aquilo convencional, para conseguir competir no mercado.

9) No começo desse ano foram fechados alguns cursos. Outros serão fechados?

R: A central de marketing e venda está fazendo esse estudo. Importante falar que não fechamos, nós deixamos de oferecer naquele período onde foi feito aquele estudo de mercado, financeiro. O curso abre se tem aluno. Quem vai pontuar isso são os dados.

10) Um caso que causou polêmica nesse primeiro ano foi a possível implantação de um campus da Medicina em Guaratinguetá. Como ficou isso? Há tratativas também com outras cidades?

R: Nós temos que arrumar a casa, e é isso que estamos fazendo. A expansão não está descartada. Estamos fazendo pesquisa de mercado no Vale, Litoral, na nossa região, para ver a capacidade que nós temos. Primeiro: não iremos com um curso só. Se a universidade assim achar, nós vamos com um campus. Não podemos nem começar só com o curso de Medicina. Não podemos errar como nós erramos em Ubatuba [na cidade, hoje, existe apenas um polo de EAD, sem cursos presenciais]. Por isso, estamos fazendo pesquisa de mercado, estudando as possibilidades financeiras, para que a gente possa avançar.

11) A senhora prometeu, ainda antes de assumir, que iria garantir a reposição salarial proporcional à inflação ainda em 2018, em até 100 dias, o que não ocorreu. Agora, esse ano, condicionou o reajuste à aprovação do projeto do IPMT e ao balanço das matrículas do segundo semestre. O reajuste esse ano vai sair?

R: Não tivemos no ano passado porque o orçamento já estava pronto. Nós prometemos a incorporação do abono, mas isso não foi possível. Temos uma comissão estudando, mas não é uma questão só da universidade, isso impacta no IPMT.

Outra questão, para chegar nisso, seria o reenquadramento dos professores. Em dois meses de gestão, aprovamos a deliberação que autoriza e regulamenta isso, passa por mais de 300 professores. Por exemplo: você tem tantos anos e entrou na universidade como especialista, mas hoje é mestre. Tem como subir a sua categoria e seu salário, mas isso não estava sendo feito por questões financeiras. Há o compromisso de que até o final do ano vamos fazer, já tem a dotação.

Pela queda no número [de matrículas], pelos investimentos que tivemos que fazer em infraestrutura, não tivemos condições de dar a reposição salarial. Hoje ela está condicionada à diminuição do aporte ao IPMT. Acredito que a gente vai conseguir chegar na aprovação dessa lei, mas depende de votação [na Câmara]. Assim que isso acontecer, faremos a reposição salarial. Se isso não acontecer, há outro estudo paralelo para ver o quanto [a gente poderia aplicar]. Vamos ter que fazer uma reposição. Mas as férias do professor se iniciam 10 de julho. A partir daí, não temos mais nenhum aluno. Tenho que ter matrícula, partimos do zero. Mas temos todos os professores, todos os funcionários, todas nossas contas. Então, temos que ver o andamento da rematrícula e das novas matrículas.

Estou bastante otimista que a gente consiga fazer uma reposição no segundo semestre. [O índice será] menos de 4%, estamos estudando.

12) Os cursos semestrais, implantados em 2013, serão mantidos? Ou voltarão a ser anuais?

R: Foi boa [a mudança]. Esse aluno não fica com uma dívida de 10, 12 meses. Ele tem uma interrupção, consegue se organizar. Hoje nós temos R$ 85 milhões de mensalidades não recebidas na dívida ativa. Esse quadrimestre [janeiro a abril de 2019] nós recebemos R$ 5 milhões, todo esse valor é investido em infraestrutura. De 3 de julho [de 2019] até maio, nós investimos R$ 8 milhões em infraestrutura. É uma gestão vitoriosa.

Já contratamos um call center externo para cobrança [da dívida ativa]. Um dado interessante é que vinha crescendo essa dívida, 25% ao ano. Em 2018 e em 2019, cresceu 7%. Por quê? Porque tivemos uma gestão financeira, um trabalho com esses alunos, na rematrícula. A gente entende a situação do aluno, do país. Mas chegava no fim do ano, se formava, depois de todo o ensino, e ia embora. No último ano fizemos uma gestão mais eficiente em cima dessa cobrança, e isso deu resultado.

A inadimplência é cíclica. Em fevereiro, março, abril, é 11%, 12%. Em maio, vai a 28%. Agora já começa a cair, pois é hora da rematrícula. Tem uma média de 24%, 25% por ano.

Hoje, nossos funcionários que solicitaram licença-prêmio em 2016 e 2017, que estavam recebendo em parcelas, conseguimos pagar integralmente. Então, 191 funcionários receberam. A universidade não deve mais nenhuma licença-prêmio de 2016 e 2017.

13) Com a queda de matrículas nos cursos presenciais e aumento no EAD, há previsão de enxugar quadro de professores e funcionários?

R: Nós já aposentamos, nesse período, 48 professores e 35 funcionários, e não estamos chamando novos. O EAD não é só na plataforma, tem que ter um tutor. Já temos 20 professores da universidade lá. Então, o EAD crescendo, nossos professores vão ter a capacitação para trabalhar nisso.