Jean-Paul Sartre dizia que o sujeito nunca é apenas um indivíduo, porque "o homem é um ser situado, universalizado por sua época, mas que nela se reproduz como individualidade", ideia para uma interpretação sócio-histórica do momento atual.
Somos, portanto, a mescla entre interioridade livre e exterioridade necessária, resultado do tempo e do espaço histórico que aparece na atualidade como um tipo novo de Calvinismo, ideologia do indivíduo como empresário de si mesmo, lançado à concorrência mortal, disfarçada de meritocracia.
O sujeito neocalvinista é movido pelo devir de sucesso, lógica na qual o outro é o concorrente que vai roubar o mérito alheio na primeira oportunidade: ao vencedor a individualidade narcisista, propensa à depressão; aos perdedores, a inculcação de culpa e inutilidade infortuna.
Há tantos ressentidos quantos sonhos frustrados porque é somente na atividade que se constrói consciência, mal-estar alimentado por "enxurrada de informações precisas e diversões assépticas que desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo" dizia Adorno, ilusão socialmente necessária que sustenta um estado de exceção permanente. Hoje os ressentidos estão todos por aí, espoliados e violentados, já não sabem o que pensam porque suas ideias e sonhos lhes foram roubados.
Ninguém perde o que nunca teve, é verdade. Mas é em momentos como este que a história prega suas peças, que se repetem duas vezes, dizia Hegel. O filósofo só não disse que reviver o passado é projeto de sociedade sem futuro, que prefere a segurança do fracasso às incertezas dos processos de emancipação..