"Tristeza não tem fim. Felicidade sim". Tom Jobim parecia cantar o futuro quando cravou os versos de "A Felicidade". "A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala: brilha tranquila, depois de leve oscila e cai, como uma lágrima de amor".
O brasileiro parece saber muito bem disso. O Brasil caiu 16 posições no ranking global da felicidade, segundo o Relatório Mundial da Felicidade, divulgado em março de 2019, na comparação com 2015.
A pesquisa é realizada em uma parceria entre as Organização das Nações Unidas (ONU) e a empresa de pesquisas Gallup. No ranking, o país ocupa a 32ª posição de 156 nações. Mas, afinal, por que os brasileiros tem tanta dificuldade para encontrar a chave da felicidade?
Segundo um dos autores do livro "Glück" (Best Seller), Fred Di Giacomo, a felicidade em cada época tem um significado diferente. "Ela pode estar relacionada a ética, aos amigos, a Deus. Hoje em dia, a felicidade está ligada a algo mais individualizado", contou ele que, junto da esposa, Karin Hueck, fez um mergulho na questão.
O escritor conta que descobriu que a felicidade é composta por satisfações pessoais e fatores externos, e há uma cobrança para sermos felizes. "Na sociedade capitalista tradicional você precisa ter para ser importante, feliz ou respeitado. Já na sociedade capitalista atual não basta você ter ou ser, mas parecer que tem", completou.
PERCEPÇÕES.
Mas será que estamos mesmo infelizes? Ou não estamos enxergando momentos de felicidade? Talvez só saberemos com certeza no final da vida. Afinal, é só diante da iminente morte é que compreendemos que a felicidade plena está muito mais ligada ao sentido da vida e a missão existencial.
"Todos nós temos a morte como o fim do nosso processo de desenvolvimento, porém não pensamos nisso diariamente", afirmou a médica oncologista Rima Jbili, do IMC (Instituto Multidisciplinar de Cancerologia), de São José.
"Só quando estamos diante de uma doença grave ou uma situação extremamente limitante é que olhamos para a morte e pensamos no que deixamos de viver", complementou a hematologista Ana Cristina Cardinalli, também do instituto.
Tristeza.
Não há receita de felicidade. Mas, cuidar do corpo e da espiritualidade faz parte desse processo de busca.
Essa é a luta de Mônica Aparecida da Costa, agente de testes de software, de São José, e que convive com a depressão. "É horrível ter depressão. Procuro estar em contato com o lado espiritual. É um passo de cada vez para vencer um dia de cada vez", declarou.
Fugir das expectativas e ignorar opiniões alheias são também opções para quem quer viver em paz. É o que relata a psicanalista Christiana Paiva de Oliveira, professora da Univap (Universidade do Vale do Paraíba). "A exigência constante de felicidade adoece porque não oferece tempo necessário para o sujeito se reorganizar internamente".
Já para Graziela Janjacomo de Alcantara Moreira, oncohematologista da equipe Centro de Hematologia do Vale, e que estuda os cuidados paliativos, a felicidade é um estado de espírito. "Um indivíduo grato com a vida tende a ser mais feliz. As pessoas cobram um padrão de felicidade, mas não há receita para isso", disse. "No final da vida, muitos dos pacientes reclamam de ter investindo na carreira em vez de passar o tempo com a família. Ou seja, a felicidade está nas pequenas coisas. Basta olhar em volta"..