08 de julho de 2026
Brasil

ALEGRIA NÃO PODE VIRAR TRAGÉDIA

Por José Vicente da Silva FilhoCoronel reformado da Polícia Militar do Estado de São Paulo, ex-Secretário Nacional de Segurança Pública e mestre em Psicologia Social pela USP |
| Tempo de leitura: 2 min
Tragédia. Superlotação matou dezenas de torcedores na Inglaterra em 1989

Uma decisão ocorrida dia 18 de junho no Superior Tribunal de Justiça deve alertar quem promove eventos coletivos, sejam manifestações, espetáculos artísticos e desportivos ou mesmo bailes em locais fechados como danceterias. Alerta também às autoridades a quem compete sua fiscalização.

Os magistrados entenderam que os proprietários e dois músicos que tocaram na boate Kiss da cidade gaúcha de Santa Maria apresentaram evidências suficientes de dolo eventual - quando se assume o risco de matar - pelo incêndio ocorrido no local há seis anos quando morreram 242 jovens e outros 636 ficaram feridos. Os réus, portanto, irão a júri popular. A enorme quantidade de pessoas no recinto fechado não foi controlada; os músicos usaram fogos de artifício durante a apresentação que incendiou materiais do teto, alastrando o fogo e produzindo espessa fumaça; os seguranças bloquearam a saída para ninguém sair sem pagar. Muitos outros responsáveis ficaram distante das punições: alguém fiscalizou, antes, as condições de segurança? Foi verificada a venda de ingressos de acordo com a lotação permitida? Havia algum plano básico de segurança, incluindo funcionários treinados? Tragédias geralmente decorrem da soma e combinação de pequenas falhas que eclodem com um fator-gatilho.

Multidões, qualquer uma, da Marcha com Jesus à Parada Gay, dos jogos de futebol às danceterias, embutem elevado poder de tragédia. Um incêndio em papéis picados durante o clássico River Plate e Boca Juniors na Argentina em 1968 provocou uma correria que resultou na morte de 74 torcedores. Em 1964 o juiz anulou um gol do Peru, contra a Argentina, o que gerou um tumulto que provocou a morte de 318 torcedores. Em 1989 na final da Copa da Inglaterra a superlotação do estádio acabou em tumulto que levou à morte de 96 torcedores do Liverpool; desde então foram eliminados os alambrados dos campos ingleses e a Fifa adotou a abertura de acesso para o gramado para esse tipo de emergência.

Na Inglaterra foi editada lei que obriga a todos os estabelecimentos que promovem eventos a ter um responsável pela segurança, devidamente credenciado por órgão público, após treinamento padronizado pelo governo, como ocorre aqui para habilitar motoristas. Essa responsabilidade é sobretudo das prefeituras, a quem compete regular o funcionamento de estabelecimentos, das condições estruturais de segurança a procedimentos preventivos e de cuidados com emergências instaladas, inclusive em eventos artísticos e culturais. Mesmo eventos de fé e de alegria precisam de competente seriedade nas medidas de prevenção e essa é responsabilidade indelegável das autoridades públicas estaduais e municipais que devem se entender para planejar a segurança dos cidadãos nas cidades..