Febre entre a garotada, "Game of Thrones" - ou simplesmente, GoT - deixou muita gente se sentindo solitário nos últimos dias com seu episódio final. Foram ao todo oito temporadas exibidas pela HBO, sucesso de público e crítica.
Os livros de George R.R. Martin, sob os quais a série foi baseada, figura entre os mais vendidos no mundo.
No centro da história, uma fantasia medieval épica: duas famílias poderosas - reis e rainhas, cavaleiros e renegados, honestos e mentirosos - disputam um jogo mortal pelo controle dos Sete Reinos de Westeros. O objetivo: assumir o Trono de Ferro.
Banhos de sangue, incesto, damas detentoras do poder, seres fantásticos... O que há de realidade em GoT? Eis um "spoiler": muito do ocorre na obra é baseado em fatos históricos. Não à toa, a Harvard, respeitada universidade dos Estados Unidos, oferece um curso que traça paralelos entre a obra de ficção e a realidade.
Segundo Brian A. Pavlac, organizador do livro "Game of Thrones versus History: Written in Blood" (Game of Thrones x História: escrito com sangue, em português), já nas cenas piloto da série era possível ver que haveria um bom senso para temas históricos.
Mais tarde, aliás, R.R. Martin, admitiu ter se inspirado na Guerra das Rosas (conflito entre as famílias Lancaster e York pelo trono da Inglaterra, ocorrido entre 1455 e 1485) ao criar a história. Claro, provavelmente na realidade não houve incesto, nem casamentos banhados de sangue, muito menos dragões.
Paralelos.
Mas, para o historiador Lucas Fernandes Casellato, de São Paulo, é possível, claro, usar o seriado como ferramenta pedagógica ainda que GoT não tenha trazido qualquer evento real/histórico.
"O livro e a série estão cheio de relações com eventos reais, povos e culturas muito próximas ou possuem episódios baseados na realidade histórica", comentou ele.
Dentre as principais relações que ele destaca está a montagem do mundo em que vivem os personagens, suas relações, tecnologias e sociedades. Estas, como em muitas outras obras, estão relacionadas, ou baseadas em realidade histórica.
Como exemplo direto, há ainda o medievalismo (aspectos relacionados à Idade Média) flagrante em Westeros, com seus castelos, nobres, e relações de suserania e vassalagem evidentes. Mas vale ainda observar simbologias e detalhes.
A muralha ao norte - aliás, uma alusão à muralha de Adriano ao norte da Inglaterra, construída pelos romanos no limite de seus domínios -, bloqueava aqueles que eram entendidos como "bárbaros" ou "ingovernáveis", na série representados pelo povo livre. Na realidade histórica, eles podem corresponder aos pictos e outros povos que resistiram à dominação romana e inglesa.
"No universo fora de Westeros podemos estabelecer diversas relações entre a baía de escravos e as grandes sociedades escravistas da Antiguidade Oriental. Também entre as cidades livres de Essos e as cidades-estado da Grécia antiga; as ilhas do verão, Naath e o continente de Sothorios, ao sul com o continente africano, incluindo uma visão estereotipada e racista que parte de um olhar europeu e que representa o continente africano como exótico e perigoso", explicou o professor.
Também fora de Westeros residem também os dothrakis, que se assemelham aos turcos, mongóis ou outros povos seminômades e cavaleiros asiáticos. "Estes exemplos já contemplam muitos conteúdos tradicionalmente trabalhados em sala de aula. A meu ver, o mais fácil de ser trabalhado é o feudalismo e as relações de suserania e vassalagem, observando as relações e disputas dentro do mundo de Westeros", orientou o professor.
"Sugiro ainda observar ao longo de oito temporadas uma história focada em nobres, que em geral, ignoram os camponeses que os mantém vivos e participando de jogos de poder e guerras", concluiu.
Confira na próxima página um resumo dos temas abordados..