08 de julho de 2026
Zenilda Lua

O futuro é feminino

Por Zenilda Lua |
| Tempo de leitura: 2 min

Antes que o vento empurrasse a roda da maldade Deus botou reparo na criatura que Ele mesmo havia criado, identificou um ser solitário com insustentável angústia, e triste, igualmente um túmulo sem flor ou pintura.
Deus pensou: “Não é bom que ele fique só. Vou traquejar um auxílio”. E fez a mulher. 
O tempo passou, o jardim floresceu, e, de repente, julgou-se que a mulher fez conluio com a serpente.
Sedução. Expulsão. Latejos para todos os tipos de maldição.
Por séculos a mulher arrastou a culpa desse pecado, o luto da perda, o semblante da queda, o regime que proibia visibilidades e a considerava como um ser naturalmente inferior, submissa ao homem, sem bens e sem voz.
Embora ocupasse algum lugar de destaque na história greco-romana, como as Mênades de Eurípides, e na história cristã, como Maria, a judia, escolhida para gerar o maior líder de todos os tempos; Jesus de Nazaré.
Sim, Jesus não nasceu de um espermatozoide, Jesus nasceu de um óvulo!
Todavia, a mulher não era vista como cidadã nos espaços públicos, não existia com plenitude, vivia a margem, encolhida no seu abissal silêncio, na escassez da subjetividade, nas faltas que de tão demasiadas, não se sustentavam de angústia e escorriam alcançando o período da modernidade por meio de  gritos e paralisias dos corpos de várias outras mulheres.
Freud identificou o pedido de socorro embrulhado nas tremuras e instigou a fala, encorajou as mulheres a não mais guardarem consigo as contentezas estranhas dos perversos. O destino das histéricas pendiam para um palpite. Freud viu uma literatura em cada alma e tratou de decifrar aqueles enigmas tão esvaziados de poesia.
O iluminismo, a revolução francesa, a revolução industrial ativaram conquistas. O homem foi para guerra. A mulher foi para fábrica. A delicada engrenagem se movimentou para outros acessos e encantos. Caminhava-se vagarosamente, com pouca afoiteza, mas caminhava-se.
No século 19 a mulher ganhou o mundo e a voz, ganhou o direito ao voto e mais habilidade com a máquina.  Não engoliu mais o sumo do chá amargo nas noites de chorar manso. As vinhas estavam carregadas, e no odre não faltava mais vinho, azeite nem trigo.
No século 20 ocupou espaços e virou um sujeito de direito. O módulo emancipatório ainda precisa de ajustes e ampliações, necessita de regulagem para quebrar alguns paradigmas, e aquebrantar inúmeros preconceitos, contudo, as sereias já foram aos mares profundos nunca antes visitados, e cantaram as canções que embalam os sonhos de todo o século 21.
O feminino do futuro é a mulher atual, e ela existe na pluralidade, sem exterminar a ternura, sem abolir direitos, sem alterar a voz para o modo “superioridade”.  Com mansidão e desenvoltura ela interage com as diferenças buscando cada vez mais representatividade na escola, na alteridade de gêneros, no parlamento, na cultura, no trabalho, reconhecendo suas próprias conquistas e limites.
Escuta, acolhe, encaminha, transforma, aconselha, inspira, facilita, negocia e sabe que a plenitude só é alcançada pela disponibilidade interna. E que o amor só acontece total e verdadeiro quando a gente encontra a gente.