09 de julho de 2026
Brasil

Crise do Covid-19 antecipa debate de olho na eleição de 2022

Por Caíque Toledo@CaiqueToledo |
| Tempo de leitura: 5 min
Brasília. Força da pandemia elevou os ânimos da política brasileira, que já começa a desenhar cenários de disputa para o pleito de 2022

Além de mudar a rotina dos brasileiros, a pandemia mundial causada pelo novo coronavírus pôs lenha na fogueira da cena política, que já vê debates e embates que estavam previstos para aflorar em dois anos. Na prática, a eleição de 2022, a corrida em direção ao Palácio do Planalto foi antecipada.

Ainda não é possível cravar se o Brasil terá os pleitos municipais neste ano e nem qual será o calendário a ser definido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). No entanto, a briga pela presidência já começou: além de ter como principal pano de fundo dois nomes outrora pareciam do mesmo lado, novos potenciais candidatos podem sair fortalecidos da crise e buscando um espaço na briga pelo Planalto.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), por exemplo, têm ganhado as manchetes desde o início das medidas mais efetivas para conter a crise causada pela nova doença.

De Brasília, o governo federal contestou as medidas dos governadores estaduais, que definiram o isolamento social e medidas de quarentena. A alegação era em relação ao cenário econômico do Brasil, que, nas palavras de Bolsonaro, veria o desemprego causar "fome, miséria e morte."

O tucano, que definiu uma agenda de diariamente anunciar no Palácio dos Bandeirantes novas ações para o combate ao vírus, criticou diversas vezes a atuação do presidente -- que, como de costume, decidiu contra-atacar. A discussão entre os decretos de quarentena e as medidas de isolamento se tornaram, na prática, um debate acalorado para planos presidenciais.

PROJEÇÃO.

Bolsonaro e Doria são colocados como alguns dos principais candidatos para a próxima eleição de olho no Planalto. A popularidade do presidente não é mais a mesma, mas ele consegue manter boa parte de seus apoiadores independente do discurso e das medidas adotadas. Enquanto isso, o governador de São Paulo parece sair fortalecido da crise até então, mesmo com muitas críticas de que esteja usando o momento para populismo.

A disputa pode ganhar, também, um terceiro nome: o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), também é apontado como um possível candidato. Eleito no Rio ao 'surfar a onda' ultraconservadora de Bolsonaro, ele já é citado como alternativa e já teve até seu nome ligado ao PSL, ex-partido do presidente. Ele também fez uma série de críticas da atuação do governo federal durante a crise e já declarou ter aspirações presidenciais.

NOMES.

Quem também aparece como potencial candidato, e já demonstrou em outras oportunidades o interesse em disputar o pleito, é o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM). O líder do Congresso têm a seu favor a facilidade do diálogo em Brasília e também já mostrou discordâncias de Bolsonaro ao longo do atual mandato.

Dentro do próprio governo, não seria surpresa um eventual interesse do ministro da Justiça, Sergio Moro, mas quem ganha os holofotes atualmente é o ministro da Saúde. Luiz Henrique Mandetta têm recebido elogios por sua atuação durante a pandemia e gerou até ciúmes do próprio presidente, que chegou a decidir demiti-lo, mas voltou atrás após a repercussão negativa. Em caso de separação, seu nome certamente passaria a figurar em listas de eventuais candidatos ao pleito presidencial de 2022.

De 'gripezinha' a 'lunático': Bolsonaro e Doria no ataque

Antes velada com críticas indiretas, a 'guerra' entre Jair Bolsonaro (sem partido) e João Doria (PSDB) tornou-se um confronto exposto nos últimos dias do mês de março.

Questionado por OVALE em uma de suas coletivas de imprensa, o tucano disse que os governadores estavam fazendo o papel que o presidente "não conseguia", e que ele não tinha condições de liderar o país na crise. Dias antes, o presidente havia chamado o coronavírus de 'gripezinha', e as palavras de Doria ganharam grande repercussão na mídia e no cenário nacional.

Bolsonaro voltou a criticar os governadores e principalmente o tucano, chamando-o de "lunático" e lembrando do apoio no segundo turno das eleições de 2018, quando o então candidato em São Paulo declarou seu voto e até criou o termo 'Bolsodoria'.

As críticas seguiram e até aceleraram os ânimos em uma videoconferência feita entre o presidente e governadores. Doria chegou a pedir o fim do 'Reis do Ringue' e que o presidente tivesse discernimento. Já Bolsonaro foi além: disse que o tucano era demagogo e que estava fazendo política, de olho, justamente, em 2022.

"Acredito que politizar uma crise como a do coronavírus, que é a maior crise de saúde pública em 100 anos, é um equívoco imenso. O momento não é o de tentar ganhar votos ou satisfazer o que os grupos eleitorais querem ouvir. Precisamos de líderes sensatos, responsáveis e que ajam em prol da resolução desta crise que será, além de uma crise na saúde, uma crise econômica e humanitária", diz o cientista político Leandro Blanque Becceneri, de São José.

"O poder executivo, federal e estadual deveria estar trabalhando em sincronia e união, de forma a tornar mais eficiente o combate à epidemia, esquecendo as desavenças eleitorais e focando no que importa neste momento, que é superação da crise do covid-19 em todos os seus aspectos", completa..

Ministro viu gavetas limpas no gabinete, mas Bolsonaro recuou em demissão

Enquanto os governadores aplicavam medidas de quarentena, quem ganhou popularidade no governo federal foi o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Com aparições diárias, o médico passou a ser personagem na mídia e ganhar destaque.

O ministro, defensor do isolamento social contestado por Bolsonaro, chegou a ser criticado pelo próprio. "Ele deveria ouvir mais o presidente", disse, dizendo que 'faltava humildade' em Mandetta.

Bolsonaro decidiu demiti-lo no início da semana, mas voltou atrás na decisão após forte pressão do Congresso, do STF (Supremo Tribunal Federal) e até dos militares do governo.

Depois, em nova entrevista coletiva, o ministro revelou que chegaram a limpar as gavetas de seu gabinete, e pediu melhoria no ambiente de trabalho. "Médico não troca de paciente."