08 de julho de 2026
Ideias

A propriedade e o medo do chicote

Por Rodrigo VieiraJornalista em São José dos Campos |
| Tempo de leitura: 1 min

A propriedade é muito mais do que o domínio de um bem. Propriedade é, no fundo, um misto de afetos de medo e segurança.

A conciliação de interesses de setores sociais e partidos políticos completamente antagônicos dentro dos governos que construíram a democracia liberal da Nova República ajuda a explicar parte da despolitização atual, especialmente das camadas mais populares da sociedade brasileira, e o motivo de um número cada vez maior de trabalhadores a buscar por amparo e segurança.

Como modo de conciliação, todos ganharam na Nova República: de banqueiros a pedreiros. Todos acumularam bens que necessitaram de segurança para preserva-los, o que, no caso brasileiro, significou polícia na rua, em especial na periferia, porque a ilegalidade está na pobreza. Passaram a ter medo, afeto político central de mobilização de massas.

Aqui vale uma passagem descrita por Heródoto sobre uma rebelião de escravos do povo Cita. "Vedes, homens de Cítia, o que fazemos. Lutando assim eles nos matam e nós os matamos. Enquanto eles nos virem armados julgar-se-ão iguais a nós. Opino para abandonarmos nossas lanças e combatê-los empunhando um chicote dos que usamos com os cavalos porque vendo-nos com chicotes eles terão medo e compreenderão que são nossos escravos; percebendo isto, não resistirão".

Antes, o chicote fazia relação com a posse e à submissão. Hoje, a propriedade e os bens são o chicote de outrora, que submetiam sujeitos ao medo e à insegurança. O chicote mudou, porém, seu simbolismo ainda produz os mesmos afetos políticos..