Não há refrigério maior que palavras que se contrapõem a absurdos diários num tempo de obscurantismo. Assim é a literatura de Mia Couto, um abrir de horizontes. Portanto, é uma oportunidade ímpar ouvir o escritor moçambicano no encerramento da Flim - Feira Literomusical de São José dos Campos, neste domingo (15).
Seu primeiro romance "Terra Sonâmbula", de 1992, nos revela que "pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte".
Sobre a questão do outro na atualidade, Mia Couto afirmou numa entrevista: "fico preocupado porque nós pensamos que esse ódio é resultado da situação de hoje, mas ela própria já é resultado de uma maneira estereotipada de classificar e ver o outro". Para ele, "o outro também está dentro de nós". De política e literatura, disse que a construção da narrativa literária é uma mentira que não mente, enquanto a política faz o inverso. "Hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isso é de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio. A literatura pode mostrar esses que são chamados 'os outros' —essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos. A literatura lembra a importância do diálogo". Assim é Antônio Emílio Leite Couto, Mia Couto, um apaixonado por gatos..