10 de julho de 2026
Brasil

Vozes chilenas: moradores falam sobre protestos e o que esperam para o futuro

Por Thais Perez |
| Tempo de leitura: 3 min
Crise. Mais um dia de protestos realizados no Chile nesta sexta

Um milhão e duzentas mil vozes chilenas se uniram para protestar contra as políticas públicas do país nesta sexta-feira (25). O país com os índices econômicos mais admirados da América Latina teve sua última gota d'água e transbordou.

Desde o dia 14 de outubro, a população do Chile tem saído às ruas para demandar mudanças no país, instigados pelo aumento de R$0,20 do valor do metrô. Mesmo com a revogação do reajuste, os chilenos não deixaram as ruas. Em meio a manifestações violentas, saques, incêndios e caos, o presidente Sebastian Piñera declarou "guerra" a um potente inimigo.

O inimigo cresceu. O que antes eram protestos de grupos militantes politicamente, se transformou em uma massa, reunindo trabalhadores, professores, alunos, famílias, idosos em uma grande corrente que clama por melhores condições de vida no Chile.

Depois da manifestação desta sexta-feira (25), o presidente pediu para que seu gabinete deixa-se seus cargos à disposição, ou seja, espera que uma renovação em sua equipe possa acalmar os ânimos no país que pede por uma nova constituição e políticas públicas mais acessíveis.

RELATOS.

O jornal OVALE conversou com dois residentes do Chile, duas pessoas de distintas gerações que vivem o mesmo cenário. Nathaly Torres Mella e Sergio Torres são pai e filha, e, apesar de terem posições políticas diferentes, concordam que as manifestações são um sinal de que o país pode mudar.

Gloria Mella, Nathaly Torres Mella e Sergio Torres

Formada em Gestão Pública e Ciências Políticas, Nathaly, 30 anos, é administradora pública em um hospital, que desde o início das manifestações tem recebidos pessoas baleadas e feridas. "Nesta última semana, tem sido bastante movimentado", conta ela.

Ela acompanhou de perto as ações violentas nos protestos, mas afirma que foram casos totalmente isolados. "A maioria da população está se manifestando pacificamente. Infelizmente, não é o que a mídia mostra. Não estamos tento problema de abastecimento, por exemplo. Tenho ido ao trabalho todos dias, o único problema é a locomoção, já que as estações de metrô foram queimadas".

Para Nathaly, o que mais a assustou durante as duas semanas de protestos, foram as convocações das forças armadas. "Jamais em minha vida tinha visto algo assim. A imagem era de que eles nos vinham a atacar, já que Piñera sugeriu uma guerra. Vi militares carregando rifles na esquina de minha casa, um lugar que sempre foi tranquilo".

Sergio Torres, 61 anos, pai de Nathaly, trabalha com informática. Desde que os protestos começaram, ele perdeu dois cursos que ministraria. Para ele, os protestos são resultado de uma série de falhas políticas durante anos.

"Nem o governo de esquerda, nem o de direita foram capazes de melhorar nossa situação", disse Torres. "Acredito que as manifestações vão ajudar a solucionar nossos problemas".

Assim como Nathaly, Torres nunca havia visto uma contração tão grande quanto a de sexta-feira. "Agora, com os imigrantes que aqui chegaram e as novas gerações, somos o triplo de gente".

A administradora pública afirma que as movimentações são mais do que um protesto, que são comuns no Chile. "É uma representação do descontentamento de um país que sentiu durante muitos anos. Desde que a Ditadura acabou, não tivemos mudanças estruturais na política. O Chile de hoje não precisa do mesmo que precisava em 1980. A sociedade está pedindo uma mudança real".

Nathaly tem acompanhado as manifestações nas ruas e acredita que a população do Chile se empoderou. Contudo, ainda assim, comparando as manifestações atual com as do Brasil em 2013, afirma que tem receio da incerteza política que aguarda o país.

"Espero que o Chile se torne um país mais justo, que todos nós tenhamos oportunidades. Queremos uma saúde de qualidade, digna, uma educação que todos possam ter acesso e que minhas avós não tenham que viver com uma pensão miserável até o fim de suas vidas", afirma ela.