08 de julho de 2026
Ideias

Cartas achadas e perdidas em um dia de dezembro

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Guilhermo Codazzi é Jornalista e escritor, editor-chefe de OVALE e Gazeta de Taubaté

Dia 30 de dezembro.

Naquela noite, na Taubaté ainda sob o efeito reconfortante do Natal, havia nas ruas enfeitadas uma mistura de adeus ano velho, feliz ano novo. Passo a passo, vaguei à procura não de um destino, e sim de destinatários. O relógio marcava 21h30. Era hora de espalhar as últimas 'Cartas Perdidas' de 2019, com mensagens de fé, esperança e amor endereçadas a encontrar desconhecidos. De forma simultânea, outros voluntários faziam o mesmo em pontos de São José dos Campos, Minas Gerais e Buenos Aires. Caminhei por aqui, ali, acolá... e parecia tudo certo, mas eu não sentia ter encontrado o lugar certo para 'perder' as cartas. Então, pedi uma mãozinha para o divino: 'me ajude a fazer essas palavras chegarem até alguém que precise de conforto'.

Dez passos adiante, poucos segundos depois, avistei a figura de um homem de meia-idade em um dos bancos da praça Santa Terezinha. Ilhado pela indiferença, ele chorava copiosamente, mas suas lágrimas pareciam invisíveis, não eram percebidas pelas dezenas e dezenas de pessoas que o enxergavam, no entanto não o viam.

Fui até ele, me apresentei e ofereci uma carta. 'Sou o novo José', afirmou o homem, fazendo referência ao carpinteiro de Nazaré, uma das figuras mais destacadas da história de Jesus, tão presente nos presépios natalinos. No entanto, ali o cenário era de muita dúvida, desesperança e ódio após a descoberta de um caso de infidelidade no casamento. A esposa havia dado à luz o filho de outro.

Após o marido aceitar a criança, a pedido da esposa, ela mudou de ideia e decidiu se separar e viver com o pai biológico do neném.

"Hoje tentei acabar com tudo, já estive três vezes no viaduto ali do Belém, mas não posso fazer isso", disse-me o homem.

Conversamos por muito tempo, até que ele se acalmasse. Ao final, o homem levantou-se e não pediu dinheiro ou qualquer bem material. Ele queria um abraço. Dei-lhe também o escapulário que eu carregava no peito.

Terminei de espalhar as cartas ali na praça, com a certeza: distante dos filtros do Instagram, há muitos corações ainda à procura de uma palavra. De empatia.

Quantas lágrimas são necessárias para regarmos um jardim de flores de plástico?

Sei apenas de uma coisa: não há melhor semente do que o amor.

CARTAS PERDIDAS

As mensagens de Ano Novo foram espalhadas em bancos, em arbustos, caixas-postais, igrejas, praças, parquinhos, etc.

CARTA ENCONTRADA

Naquela noite, chegando em casa recebi um 'Whats' de uma jovem que havia encontrado uma carta e viu o telefone no verso.

NA CAIXA-POSTAL

"Todos nós sabemos que simples gestos podem mudar o dia e, quiçá, a vida de alguém", dizia a mensagem.