Semáforo vermelho. Os veículos param. Outro movimento toma o asfalto quente. Corpo franzino, olhar da malandragem que a vida ensinou. Sobrevivência. Com três bastões ele os arremessa ao ar, substituindo-os nas mãos, sem deixá-los cair. Movimento suave e preciso; bailarino descalço sobre o asfalto.
Não bastasse, ateia fogo às pontas dos bastões e a pirofagia escandaliza a performance.
Alguns segundos tiram minha atenção e olho para os lados; os outros motoristas sequer notam sua presença. O rito cotidiano torna-o invisível. Apresso-me para achar um trocado, um agradecimento. Autoenganação de um burocrata estatal de classe média. Ele passa, com um sorriso, agradece, e segue a fileira de veículos.
O verde do semáforo obriga que eu siga destino e logo uma angústia sufoca o peito.
Ali, vem à memória o conto O Homem da Multidão, de Edgar Allan Poe, que descreve a cidade como o templo do flanêur, o espaço de suas perambulações. Nela ele se depara com sua contradição: sentir-se sozinho em meio a seus semelhantes.
O flanêur é o ser que vê o mundo sem a pretensão de explicar, mas com a intenção de mostrar. Sua paixão é a exterioridade, na rua encontra o seu refúgio, buscando sua identificação com a sociedade na qual convive. Nas ruas das cidades, o flanêur constata que o homem moderno é vitimado pelas agressões das mercadorias e anulado pela multidão, estando condenado a vagar pela cidade como um embriagado em estado de abandono. É essa angústia que o flanêur representou no século 19 e persiste nos dias do século 21..